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Especial
O Brasil na rota do doping
Reportagem do jornal LANCE! revela como
é fácil se dopar sem ser pego nos exames

Confira uma série de reportagens publicadas no jornal esportivo Lance, a respeito de doping no ciclismo brasileiro. A matéria foi publicada na segunda-feira, dia 31 de janeiro, e causou furor na Federação Paulista de Ciclismo, que no mesmo dia publicou uma nota oficial em repúdio à reportagem assinada pelo repórter Rafael Presilli. (VEJA A NOTA).

O Bikemagazine reproduz abaixo o texto da matéria “Denúncia no ciclismo - O Brasil na rota do doping”.

Ciclista revela ao Lance! detalhes de como se dopar e como não ser pego
Um atleta de uma equipe paulista, que disputou a última Volta Internacional de São Paulo, contou ao Lance, como é fácil se dopar sem ser pego no esporte.

Segundo o "Corredor X", que pediu para não ter o nome revelado e como será chamado pelo Lance na reportagem, há uma facilidade muito grande para encontrar doping e meios de burlar os exames.

E uma das principais facilidades para se dopar é que no Brasil são raros os exames antidoping feitos com o sangue, fato confirmado pela Confederação Brasileira de Ciclismo (CBC).

Hoje, quase todos os exames antidoping do ciclismo são feitos pela urina.
E exames feitos apenas desta forma não detectam muitas drogas novas do mercado.

As drogas mais comuns hoje, de acordo com o Corredor X, são a EPO (eritropoietina) e o hGH (hormônio de crescimento). Mesmo ingerindo grandes quantidades, o atleta passa impune no Brasil, pois nenhum dos controles antidoping realizados no país identificam essas substâncias.

A CBC só realiza esse controle em três provas (Volta de SP, do Rio e de Santa Catarina). Em cada uma são realizados 32 exames, ao custo de R$ 560 cada um. Mas esse tipo de exame, feito na urina do atleta, não detecta EPO e hGH.

Apenas em exames de sangue ou num controle de urina três vezes mais caro. Outra facilidade encontrada por atletas é que muitos remédios são vendidos em farmácias do país sem prescrição médica.

O Corredor X, que nunca caiu em exame antidoping mas também nunca conseguiu grandes resultados, relatou ter tomado EPO, que estimula a produção de glóbulos vermelhos do sangue. Os glóbulos vermelhos transportam oxigênio. Portanto, a elevação de EPO ocasiona o aumento na capacidade de transporte de oxigênio.

“Você se sente bem em qualquer circunstância. Nem depois de 200 km suas pernas queimam. É muito bom”, afirmou o ciclista, que disse ter injetado no braço 15 ampolas de Eprex (remédio para leucemia que contém EPO), uma a cada dois dias.

Segundo ele, as drogas deca-durabolin, anfetamina, efedrina têm sido evitadas porque já estão sendo detectadas nos exames.

“Uma vez, já senti que ia morrer”
"Acho que tem muito ciclista novo gastando o salário inteiro em um tratamento de EPO ou HG. Eu gastei mais de R$ 1,5 mil e do jeito que está, vou ter que usar mais para garantir meu lugar. Não existe pressão de técnicos para tomar, e sim por resultados. Teve uns atletas que andaram jogando medicamentos na privada depois de ter “brochado“ à noite. Eu mesmo já senti uma vez que iria morrer após uma prova depois de usar anfetaminas" - conta o Corredor X.

Hematócitos

Luciano Pagliarini, principal ciclista brasileiro da atualidade, falou que "ouviu coisas no pelotão" da Volta de São Paulo sobre doping.

“A gente ouve coisas aqui no Brasil, como também ouve na Europa. Doping sempre vai existir”, disse o atleta da Seleção Brasileira.

“Mas uma coisa é verdade. Um burro não vai virar um cavalo do dia para a noite só tomando um monte de coisa. Tem muita gente que se ilude com essa história de doping, acha que vai melhorar o desempenho de forma mágica”, completou.

O brasileiro especialista em “sprint” da equipe italiana Liquigas/Bianchi, teve que levar exames de sangue do pai para provar para a União Ciclística Internacional, que seu alto índice de hematócito não é doping. Hematócito é a parte do sangue feita de glóbulos vermelhos.

Com um hematócito alto, o organismo do atleta tem mais glóbulos vermelhos e, conseqüentemente, carrega mais oxigênio no sangue, aumentando a sua resistência.

A UCI permite até 50% de células vermelhas. Pagliarini tem 48%, mas seu índice já chegou a 54%. De um não atleta, o normal é de 37%. “Sou abençoado por ter esse alto índice. Tem muita gente que toma de tudo para chegar a isso e eu consigo naturalmente”, afirmou.

Pagliarini também levou como prova os exames realizados no Brasil, quando ainda corria na equipe Caloi, há mais de seis anos. “Tudo que tiver para provar que esse índice é genético é válido”, comentou o brasileiro.

A Federação Paulista de Ciclismo diz que realizou 50 testes antidoping de sangue e urina de surpresa com os melhores atletas do ranking brasileiro.
Hoje no Brasil, só com um exame de sangue é possível detectar a EPO (eritropoietina), segundo o Comitê Olímpico Brasileiro. “Fizemos 50 em 2004 e a meta é realizar exames de sangue em todos os ciclistas brasileiros”, disse Marcos Mazzaron, presidente da entidade.

Segundo ele, não houve nenhum resultado positivo para EPO nem hGH, duas substâncias não detectadas no exame de urina comum. “Sei da fama do ciclismo e procuramos combater isso”, completou.

Escândalo antigo

A Confederação Brasileira de Ciclismo (CBC) e o médico licenciado pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Bruno Borges da Fonseca, reconheceram que, "como qualquer esporte", existe doping no ciclismo brasileiro.

A CBC estuda instituir o exame antidoping de sangue no Brasil. Hoje o País realiza apenas controles de urina, que não detectam o EPO e nem o hGH.
"A Wada (Agência Mundial Antidoping) encontrou há pouco tempo uma fórmula que acusa o EPO na urina. Mas esse exame antidoping custa mais de US$ 1 mil", disse o médico Fonseca. O antidoping sangüíneo foi liberado pelo Comitê Olímpico Internacional no ano passado. Antes disso, ele era proibido por ser considerado invasivo.

"Enquanto souberem que não pega no exame, vão continuar usando livremente. E o pelotão nas provas vai ficar dividido entre aqueles que tomam EPO e os que não fazem uso disso", declarou um atleta, que não quis se identificar.

O mundo esportivo foi apresentado à EPO pela primeira vez na Olimpíada de Inverno de 1988. Os esquiadores soviéticos surpreenderam ao conseguir várias medalhas batendo, nas provas de longa distância, os noruegueses, de quem eram fregueses de caderneta nas competições internacionais. Foi colocada como droga proibida nos Jogos de 1992, em Barcelona.

Escândalos de doping mancharam o ciclismo na Europa, como o caso do campeão do Tour de France de 1998, Marco Pantani. Ele foi encontrado morto no ano passado em um hotel, por overdose de cocaína.

De acordo com o médico Rafael Trindade, também licenciado pelo Comitê Olímpico, o ciclismo é o esporte mais relacionado ao doping justamente por ser o que mais faz controles. Foram mais de dois mil somente em 2004.

Somados os exames pelos quais passaram em 2004 os dois brasileiros que correm em equipes profissionais na Itália, Luciano Pagliarini e Murilo Fischer, já representa o equivalente ao que a CBC realiza por temporada dentro do país. "Passei por mais de 20 exames de sangue e dez de urina em 2004. Eles não dão moleza", disse Pagliarini.

Aparelho antidoping

O Brasil vai ter o que existe de mais moderno no combate contra o doping no mundo a partir do meio deste ano.

Visando o Panamericano de 2007, no Rio, o Ministério do Esporte liberou verba de US$ 1,5 milhão (cerca de R$ 4 milhões) ao COB (Comitê Olímpico Brasileiro) para a compra da Eletroforese, máquina considerada como a mais moderna do mundo em exames antidoping.

Quem contou foi o médico brasileiro Eduardo De Rose, membro da Comissão Médica do Comitê Olímpico Internacional (COI) e uma das maiores autoridades mundiais no combate às drogas no esporte.

“Será necessária para suprir a deficiência que o esporte brasileiro apresenta no combate ao doping”, disse De Rose, reconhecendo a ineficácia para detectar as drogas EPO (eritropoietina) e o hGH (hormônio sintético).

O médico conversou com o Lance, por telefone de Turim (Itália), onde coordena o antidoping dos atletas que disputarão os Jogos de Inverno, em 2006.

Segundo reportagem publicada na pelo Lance, são raros os exames, principalmente no ciclismo, que conseguem detectar todos os tipos de drogas.
“Precisamos estar preparados para a demanda que o Brasil terá durante os Jogos Panamericanos. A máquina deve ser testada antes dos Jogos”, afirmou Francisco Radler, coordenador do laboratório Ladetec, no Rio, para onde vai o aparelho.

O Ladetec é o único credenciado pelo COI para exames antidoping na América do Sul. A máquina, porém, só deve chegar depois da Volta Ciclística do Rio de Janeiro, em abril.

Atualmente, de acordo com os médicos do COB, os exames de urina realizados no Brasil não acusam todas as substâncias dopantes proibidas. A máquina, a Eletroforese é capaz de detectar as drogas por meio de um controle de urina. A técnica de máquina consiste em separar todos os componentes da urina, facilitando a análise. É geralmente usada para avaliar a composição de alimentos, medicamentos e produtos químicos.


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