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Legião
estrangeira
Ciclistas
que competem e vivem fora do Brasil falam de suas experiências
e dificuldades e destacam a importância da humildade
Texto: Daniela Prandi
A cena
é das mais comuns: no Brasil, o atleta vence todas as provas
e é sempre o favorito. Quando vai ao exterior, sente a diferença
no nível técnico dos competidores e aprende uma lição
importante para a vida toda. “Lá fora, você vê
que é mais um, tem que ter humildade e conquistar seu espaço”,
conta o ciclista paranaense Luciano Pagliarini, que vive há
seis anos na Itália. “No início senti muito
preconceito. Foi só depois que comecei a mostrar bons resultados
é que comecei a ser mais respeitado”, afirma.
Pagliarini
(foto) destaca que, apesar de todas as dificuldades,
vale a pena passar uma temporada fora. “Principalmente na
Europa. Os europeus têm muito a nos ensinar. O que não
sabemos aqui, com certeza vamos aprender lá. É preciso
ver como eles trabalham para melhorarmos no Brasil”, continua.
O atleta,
que integra a equipe italiana Liquigas – definida por ele
como o Real Madrid do ciclismo – vê evoluções
no cenário nacional. “As provas estão mais bem
organizadas, as equipes também. Agora, problemas básicos,
como garantir água gelada aos pilotos, já estão
solucionados”, aponta Pagliarini, logo após disputar
a prova Copa América de Ciclismo, em janeiro de 2005, em
São Paulo.
O veterano
Cássio Paiva, precursor da movimentação em
direção a Europa, destaca a importância do intercâmbio.
“O nível do esporte no Brasil é bem inferior
ao dos europeus. Uma temporada fora faz muita diferença”,
afirma o atleta, que durante sua estada em Portugal venceu provas
importantes e marcou seu nome na história, conquistando o
respeito e a admiração dos europeus. “Abri caminho
e, em Portugal, hoje, os brasileiros são reconhecidos”,
completa o ciclista que foi campeão da Volta de Portugal,
em 1992.
José
Luiz Vasconcellos, vice-presidente da Confederação
Brasileira de Ciclismo (CBC), vê a ida dos brasileiros ao
exterior como positiva. “Lá fora os atletas começam
a se acostumar com provas de alta quilometragem, onde o nível
é sempre lá em cima. É claro que não
focamos em resultados, e sim no aprimoramento técnico do
ciclista”, diz.
Já
para o movimento inverso, quando equipes brasileiras investem na
“importação” de atletas, o vice-presidente
é reticente. “Gostaríamos que as equipes fossem
formadas por brasileiros porque estamos trabalhando para levar o
nome do nosso país ao pódio. Mas é natural
que as equipes busquem nomes de fora como uma estratégia”,
completa. Vale lembrar que a última edição
do Tour de Santa Catarina teve como campeão, pela primeira
vez em 18 anos de história, o argentino Matias Médici.
Outro
argentino, Jorge Giacinti (foto), recém-contratado
para correr na equipe Memorial, diz que o Brasil é cada vez
mais uma referência para os ciclistas sul-americanos.
“Atualmente,
a Argentina não tem equipes bem estruturadas. Nesse momento,
o melhor país é o Brasil, onde as equipes conquistam
cada vez mais importância e estrutura”, conta. O atleta,
que venceu duas vezes a Volta do Uruguai, entre outros títulos,
é de Córdoba e já morou no Uruguai e no Chile.
Oscar Galindez, triatleta argentino radicado em Santos há
longos anos, também encontrou no Brasil o seu refúgio
perfeito para treinar e competir.
Superpoderosas
No
ciclismo feminino, três brasileiras de uma mesma família
têm se destacado na Itália. A primeira a deixar Goiânia
e cruzar o Atlântico em busca de melhores pedaladas foi Janildes
Fernandes. Depois, seguiram o mesmo caminho sua irmã Clemilda
e a prima Uênia.
Hoje,
o trio (foto) vive junto e mata as saudades do
Brasil, da família e do arroz com feijão com muito
companheirismo. “Como fui a primeira a ir para a Itália,
sofri por causa do isolamento e tive de me adaptar aos novos hábitos.
Fora
o frio, que me obrigava a correr com um monte de roupa, coisa que
eu não estava acostumada, parecia um robô. Não
senti preconceito, acho, inclusive, que os italianos gostam muito
dos brasileiros”, diz Janildes.
Para
Clemilda (foto), a oportunidade de viver no exterior
e disputar provas importantes marcou a realização
de um sonho.
“É
uma vida de muito esforço, vive-se só para o ciclismo,
os treinos são duros, a alimentação é
bem diferente daquele a que estávamos acostumadas. Mas é
ótimo ver que tudo compensa, hoje, sou a segunda melhor da
minha equipe”, festeja.
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| Clemilda
mostra as unhas
feitas pela prima Uênia |
Já
Uênia destaca que sua principal dificuldade foi a barreira
da língua. “Não sabia falar nada, mas aprendi
rapidinho. Os italianos são bem diferentes dos brasileiros,
mas a gente conseguiu conquistar nosso espaço”, completa.
A saudade
da família bate forte e as ciclistas, quando não estão
treinando, fazem companhia umas às outras. Nestas horas,
a vaidade feminina fala mais alto e o tempo é gasto com manicure,
depilação e cuidados com os cabelos.
Cada
uma cuida da outra e todas se divertem. Nas horas de folga, o programa
favorito é a discoteca. “Depois de períodos
em que a gente chega a competir todos os dias, ir à discoteca
é uma festa. E sempre aparece algum pretendente italiano”,
entrega Janildes.
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