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VINTE
ANOS DE MTB – Parte 1
Modalidade completa duas décadas de
Brasil com muita história para contar
Texto
de Paulo de Tarso - Fotos
de divulgação
O
mountain bike já está totalmente consolidado no mundo
ciclístico, com muitos atletas e entusiastas, um calendário
de competições definido e uma indústria de
equipamentos que lança novidades a cada dia. Esse é
o resultado do trabalho de muitas pessoas que se dedicaram ao desenvolvimento
da modalidade, bem como do apoio de entidades públicas e
privadas e da participação do público, que
prestigia e fortalece cada vez mais o esporte.
“Lembro-me
muito bem da aparição das primeiras bicicletas de
mountain bike. Foi lá pelo ano de 1988. Eu morava no Rio
de Janeiro, era praticante de ciclismo de estrada e triatlon, quando
começaram a aparecer no meio do pelotão umas bicicletas
um tanto quanto diferentes para época. Eram as tão
faladas mountain bikes”, conta Paulo de Tarso, o presidente
e um dos fundadores da Associação Sampa Bikers, pioneira
na organização de provas e de eventos cicloturísticos
no Brasil.
Vamos
contar em vários capítulos toda a trajetória
dessa modalidade ciclística apaixonante, o mountain bike.
Baseado
em pesquisas de antigas revistas como a Bici Sport e a Revista Trekking,
da rede e lojas Bike Tech, e atuais revistas como a Bike Action,
além de histórias contadas pelos pioneiros no esporte
no país.
A
TEMPORADA DE 1989 – Quando tudo começou
Era
mais ou menos previsível que depois de 1988, após
a primeira edição do Mountain Bike Cup Fazenda Hotel
Jatahy, organizado por Marcos Ripper, em Paraíba do Sul (RJ),
a coisa toda explodisse no país.
Tudo
indicava que os cariocas iriam ditar os rumos; já haviam
feito um campeonato, tinham conhecimento técnico avançado
das bicicletas e, na época, eram os únicos fabricantes
de quadros artesanais específicos para mountain bike, o quadro
Pró Bike.
Em
1989, o ciclismo quase muda de nome, tal a força de entrada
e recepção que tiveram essas bicicletas de pneus grossos
e muitas marchas. O impacto foi tão forte que muitos dos
principais ciclistas olímpicos participaram das provas de
mountain bike. Quase toda a mídia, normalmente indiferente
ao ciclismo, percebeu essa situação e deu um grande
espaço para a nova modalidade. Nascia assim o mountain bike
no Brasil.
O primeiro
ano da modalidade no Brasil foi uma festa, quase uma brincadeira.
Grande parte dos praticantes, para ser considerada amadora, tinha
ainda que pedalar muito. Eram pessoas que se transformavam em ciclistas
apenas nos fins de semana, na busca de contato mais próximo
com a natureza.
A
primeira prova nacional também aconteceu em Petrópolis
(RJ), no dia 4 de junho de 1989, com a presença de 93 competidores.
A vitória na categoria principal foi do paulistano Eduardo
Ramires (foto). Esse teria sido o primeiro confronto
entre cariocas e paulistas e também a primeira oportunidade
de um confronto com participantes de outros estados.
De
São Paulo, a loja Trilha fretou um ônibus e levou 23
participantes e eles venceram em quase todas as categorias. A prova
foi dividida em três etapas: Up Hill, Downhill e Cross Country.
A Caloi
também deu seu empurrão e patrocinou eventos e provas
e lançou rapidamente um produto para o novo mercado: a Caloi
Mountain Bike, a primeira bicicleta do gênero fabricada no
Brasil. Foi à única fábrica presente no mountain
bike naquele ano de 1989.
Em
São Paulo tudo nasceu com JB e com Renata Falzoni, com sua
genial criação: o Iº Cruiser das Montanhas de
Campos do Jordão, patrocinado pela Caloi e realizada no mês
de julho, o evento reuniu 50 bicicletas Cruiser Montana, de 5 marchas,
e fez um sucesso absurdo.
Renata
e J.B fariam a primeira prova ainda em 1988, a Copa Halls-Lâminas
Schick, que foi um dos pontos altos de todo o ano de 1989.
Renata
Falzoni, jornalista conceituada, jogou todas as suas forças
e seu profissionalismo na divulgação do novo esporte
e conseguiu resultados surpreendentes. A resposta na mídia
foi total e o mountain bike passou a ser conhecido por todo mundo.
CAMPEONATO
BRASILEIRO
Em
1989 foi realizado também o primeiro campeonato brasileiro,
que teve como vencedor o paulista Marcos Mazzaron (foto)
e Renata Branco Osório venceu no feminino.
O Campeonato
Brasileiro, patrocinado pela Caloi, começou como esporte
profissional, com muita seriedade nas provas e sempre com uma organização
técnica perfeita. Foram cinco etapas: Campos do Jordão,
Itatiba, Paraíba do Sul e duas vezes em São José
dos Campos. Até então não havia divisão
de categorias.
A diferença
entre esses dois campeonatos - a Copa Halls-Schick e o Campeonato
Brasileiro - foi muito grande. Os estilos eram marcados por seus
capitães-chefe.
Renata
Falzoni e J.B. são mais festivos e preocupados com detalhes
que agradem a todos, preparando circuitos com trilhas que exigem
muita técnica em um clima de alegria. Foram quatros etapas
disputadas em Espírito Santo do Pinhal, Campos do Jordão,
Sousas (Distrito de Campinas) e Atibaia, todas no interior paulista.
Eram provas em que mesmo nas pistas rápidas e com menos trilhas,
a força não se sobrepunha à técnica.
Para
Eduardo Ramires, a etapa de Campos do Jordão foi a melhor
prova do ano de 1989.
OUTROS
CAMPEONATOS
Em
Campinas, a 100 km da capital paulista, José Félix
realizou cinco etapas do Campeonato Regional de Campinas (Sousas
– duas vezes), Indaiatuba, Campinas e Pedreira.
Apelidado
por alguém de “Campeonato do Riso”, mesmo sem
contar com suporte financeiro, Félix conseguiu realizar um
evento com muitos participantes e ótima organização.
Outro
campeonato que marcou época, também com organização
simples e com muitos participantes, foi o Intercity da Trilha. Organizado
pelo criador da marca e da loja Trilha, o “Luisinho da Trilha”,
tinha como característica trajetos com muita técnica,
força, belas paisagens e longas distâncias. Naquela
época já se dizia que esse tipo de prova seria o mountain
bike do futuro. E com razão, já que atualmente as
provas de maratonas crescem cada vez mais.
Em
1989 foi realizado a primeira edição do Intercity
da Trilha, com duas etapas (seriam três, mais não houve
data disponível) – uma de Mairiporã até
Atibaia, e outra de Espírito Santo do Pinhal até Albertina.
No
Rio de Janeiro, Henrique Coutinho e Tião Gavião fizeram
uma das provas mais legais daquele ano, o Petrópolis 3 Mountain
Bike, uma prova com Up Hill, Downhill e Cross Country, tudo em um
dia só.
TÍTULO
MUNDIAL
Em
1989 foram mais de vinte provas só entre Rio e São
Paulo. Isso sem contar com Santa Catarina, onde também houve
campeonato. Um aspecto que deve ser lembrado é que o interior
do Brasil ainda não havia descoberto o mountain bike.
Mas
o fato mais marcante do surgimento do mountain bike no Brasil foi
o Campeonato Mundial conquistado por Eduardo Ramires. Foi um coroamento
merecido, pois no ano de 1989 ele havia vencido quase todas as provas
e só não levou para casa o título de Campeão
Brasileiro. Sem dúvida foi o ciclista da década de
80 no mountain bike.
O
paulistano Osvaldão dos Santos (foto) foi
o segundo em vitórias no ano de 1989 e uma sombra para Ramires,
sendo único oponente em condições reais de
enfrentar Ramires.
As
disputas entre ambos foram um caso a parte. Marcos Mazzaron, hoje
atual presidente da Federação Paulista de Ciclismo,
se juntou a essas feras do mountain bike.
Vindo
de uma carreira vitoriosa do ciclismo de estrada, perdeu sua primeira
corrida para Ramires, mas dali pra frente conseguiu ser o mais forte
ciclista de sua categoria.
Outros
atletas que se destacaram no ano de 1989 foram os primeiros dos
“normais”, cada um com seu estilo próprio: o
campineiro Ulisses Dupas e Cláudio Luiz Branco (foto
à esquerda).
Cláudio
Branco era um ciclista que mantinha um equilíbrio entre suas
qualidades. Era forte, técnico e com uma visão clara
da corrida. Na época, era o único entre os cincos
melhores do Brasil que corria com um quadro nacional, um Pró
Bike, made in Teresópolis. Hoje ele ainda continua competindo
na categoria Master, sempre chegando entre os primeiros.
Dupas
(foto abaixo) foi apelidado de o “eterno
terceiro”. Sua bicicleta era bastante precária, mais
sua técnica era refinadíssima. Hoje Dupas gerencia
uma loja em Campinas, a Bike Fan (VEJA
MATÉRIA).
Dos
cariocas, vale um destaque especial para o ciclista olímpico
Eduardo Berlink. Mas outros atletas, que também mostraram
trabalho muito bom, merecem ser citados como Marcos Catão,
Caio Marques, Luiz Rodegheri e Luiz Cati Pureza. Catão, em
1989, era um dos dez melhores do país e o Caio o mais forte
dentre os veteranos.
Os
cariocas se destacavam por ter um grupo de mais de 40 pessoas que
pedalavam muito. Há também aqueles cariocas que não
participaram de todas as provas, mas também deixaram suas
marcas como Moisés Amaral, Paulo Amaral Gurgel, Gentil Leite
e outros tantos.
Em
Minas Gerais, na cidade de Juiz de Fora, surgia uma das melhores
surpresas da tempora 89, os irmãos Miguel e Marcelo Giovannini.
Miguel chegou assustando ao andar entre os monstros e deu o que
falar nos anos seguintes.
Entre
os ciclistas olímpicos, o paulistano Cleber Anderson foi
um dos primeiros a correr de mountain bike. Anderson sempre largou
na ponta e chegava entre os dez primeiros. No seu rastro vieram
seus irmãos Celso e Clóvis e outros mais.
Na
categoria Junior, Maurício Bombarda era o campeão
absoluto e talvez a grande revelação do ano. E nos
veteranos, Rubinho Pontes, Carlão Aliperti e Neni Aliperti
embolavam em uma acirrada disputa com Salvador Abreu, o primeiro
veterano vindo do ciclismo.
AS
MULHERES
As
primeiras meninas a se destacarem no cenário nacional foram
Renatinha Osório e Maria Paula Miranda, além da ciclista
olímpica Cláudia Carceroni, a mineira que estreou
no mountain bike com vitória.
Ana
Cecília Guglielmi, a grande fera do cenário feminino
naquele ano, ficou de fora da temporada por ter tido o seu segundo
filho. Maria Elisa Gayoso, hoje esposa de Edu Ramires, estreou no
mountain bike com um tombaço que rendeu uma fratura, mas
voltou desafiando a posição de Daniela Cabrino, que
também estava sempre entre as primeiras.
Enquanto
a galera colocava as bikes nas trilhas, Daniel Aliperti era a primeira
pessoa especializada em manutenção de mountain bikes
e também o primeiro a ter ferramentas específicas
para mexer em mountain bikes. Aliperti foi aos Estados Unidos estudar
no Barnett Bicycle Institute, instituição que é
referência mundial em mecânica de bicicletas.
“Fui
mecânico do Maurício Bombarda, do Oswaldão,
do Edu Ramires, do Erivan e de vários outros nos anos de
1990 a 1992. Pegava as bikes deles todas detonas, com tudo duro,
funcionando mal e as devolvia todas perfeitas, macias. Os caras
não acreditavam”, conta Daniel Aliperti.
O paulistano
Aliperti também participava das provas e participa até
hoje. E foi uma das primeiras pessoas a andar com um pedal de encaixe
do tipo SPD no Brasil, enquanto que a maioria das pessoas ainda
pedalavam com as antiquadas correias firma-pé. Aliperti é
proprietário de uma das mais renomadas lojas de bikes do
Brasil, a Pedal Power.
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