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Mister Mongoose

O gado e as regras do jogo

Para quem não é familiarizado com os termos do mountain bike, o cross country é uma corrida de mountain bike onde se tem que dar um certo número de voltas em um circuito, em geral algo entre 2 e 6 km de extensão. Até então, eu só havia disputado provas de trip trail, onde a largada é em um ponto, e após uma grande volta, que pode variar de 10 a 50 km, chegamos ao ponto de largada.

No ano de 2002, após a meia-maratona do Pão de Açúcar preparei-me para a última etapa da Copa Caloi de MTB Amador, que seria em Itupeva (SP), próximo a Campinas. Fiz a inscrição para a prova, mas o número de voltas no circuito ainda não havia sido definido. E eu não sabia nada sobre o relevo do circuito.

No dia marcado, lá chego eu. Ainda sem saber o número de voltas que teria que dar no circuito. Alguns diziam quatro, outros três, outros duas e outros ainda, diziam que seria um trip trail e não um cross country (?). Em quem acreditar? "Sei lá. Vim aqui para correr. Seja lá o que for", pensei.

Como era a última etapa e apenas 60 km nos separavam da Capital, havia muita gente. Muita mesmo. Como de costume sentei-me em um lugar calmo para fazer uns exercícios de concentração e respiração. Alonguei-me e saí para uma pedaladinha para me aquecer. Alinhei-me para a largada. Não pude deixar de notar novamente o grande número de ciclistas ali parados e esperando pelo sinal de largada.

Parecíamos gado confinado em um grande curral. "Quando derem a largada, por onde esta boiada toda vai passar?. Acho que por ali não vai caber todo mundo...", calculei. Soou o sinal de largada e dito e feito. O inexorável aconteceu. Era um tal de neguinho levantar a bike sobre a cabeça e correr que fiquei pasmo. "Ô loco! Isso vale? E cortar caminho sobre o barranco? Vale também?". Pensei.

Tinha boi pulando cerca para tudo quanto era lado. Achei melhor obedecer as regras da prova e larguei lá trás. Marquei no cronógrafo seis minutos de atraso até eu passar pelo portal de largada, digo, curral de largada. "Putz...meus adversários já foram". Vi que havia ciclistas laá loonge ... já no trecho de single track. Mas não me abalei. "Ainda há muito tempo", pensei comigo.

Estava ali para correr e não para pensar em falhas da organização da prova. E corri. Logo na primeira volta fiz muita força na primeira subida e devo ter ultrapassado uma centena de competidores. O circuito era muito bonito. Boa parte dele era em meio a um pasto cheio de single-tracks - caminhos de vaca na realidade, com poucos locais de ultrapassagem - buracos, porteiras e um lindo trecho em uma mata nativa. O single-track continuava até alcançar um descidão, que nos levava de volta à área da largada, passando antes por um longo corredor, que me pareciam cercas que levam o gado para o curral de largada.

E lá fui eu de novo em direção ao pasto. Na segunda volta notei um ciclista da minha categoria com uma Schwinn e braços marombados com tatuagens tribais. Passei a persegui-lo, afinal, mesmo largando mal, tinha que ultrapassar alguém de minha categoria para me sentir vivo. Aliás, ao término de toda descida eu dava um tiro de uns 20 segundos para tentar tirar ao máximo a diferença dos líderes. E fiz assim a prova toda. Ataquei o tempo todo. Sempre.

Pedalei forte na subida mais difícil e longa e consegui passar o marombado tatuado. Ele veio atrás de mim, mas não por muito tempo. Passei novamente pelo curral de largada e abri mais uma volta. Uma perguntinha ainda estava em minha cabeça: "Quantas voltas faltam para o final?". A essa altura eu estava firme e forte e chegando nos outros atletas de minha categoria. Passei todos quantos eu vi pela frente. E o tatuado? Sumiu de minha vista. Mais tarde fiquei sabendo que ele nem acabou a prova.

Antes de completar a segunda volta, após passar alguns atletas de minha categoria, notei que algo estava errado com o selim de minha bike. Ele parecia estar solto. E estava mesmo!.Sinuca de bico. "Se eu parar perco tempo...justo agora que acabei de fazer um sacrifício enorme para ultrapassar esses dois caras. Se eu continuar o selim vai sair de vez". A sorte estava do meu lado.

- Ei amigo, você tem uma chave Allen para me emprestar para eu apertar o selim? Perguntei a um competidor parado no alto de uma subida, que arrumava algo na bike dele.
- Opa, tá na mão. Em menos de 30 segundos resolvi meu problema e voltei à prova. Não demorou, ultrapassei novamente os dois camaradas.

Na última volta, já arfando de tanto fazer força, desmontei da bike para subir um degrau de terra e escorreguei, com a bike nas costas. Ralei o joelho e o cotovelo. "Siga em frente, vamos lá, falta pouco. Pedale forte que tá chegando", disse a mim mesmo.

E assim fiz. Pedalei tudo o que pude. Cheguei babando de cansaço. Na hora da premiação estava ansioso para ver minha colocação. O pódio tinha 10 lugares. A organização chamou nove nomes. Eu fui o último a ser chamado! Mas subi no pódio.

Independente do resultado da prova - que não foi o que eu esperava -, eu fiz a melhor prova de minha vida nesse dia. Corri o tempo todo focado na prova com contração total. Só tive olhos para os competidores à minha frente. Ataquei sempre. Não fiz corpo mole. Quando um problema surgiu (o parafuso do selim), eu soube pensar rápido e esperar o momento certo para resolvê-lo. Não me abalei e voltei à prova e ultrapassei meus adversários, todos quantos eu pude avistar. O momento da largada teve seus problemas, mas deixei de lado e persegui meu objetivo que era o de fazer uma boa prova e terminá-la, independente da colocação final.

Consegui. Ano que vem tem mais Copa Caloi.

Mais tarde, quando fui conferir os tempos, os seis minutos que perdi no curral da largada fizeram muita falta. Eu poderia ter sido o segundo ou terceiro, mas tudo bem. Respeitar as regras da prova é uma questão pessoal.

Escreva para o Mister Mongoose: mistermongoose@bol.com.br

Leia também: Minha primeira meia-maratona


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