Paris-Brest-Paris:
1.200 km em 86 horas
Acompanhe a aventura de um brasileiro
em uma
das mais duras provas do mundo
Texto e fotos:
Manuel Terra - Clube Audax Basil
Concentração
para a
largada em Paris
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O Paris Brest Paris
(PBP) é um evento de ciclismo de longa distância
que se realiza a cada quatro anos e consta de 1225 km de distância
, 9539 metros de subidas acumuladas e de até 90 horas totais
para ser realizado.
Organizado pelo Audax Club Parisien
(ACP), este evento de ciclismo, predecessor do Tour de France, acontece
desde 1891 e é o mais antigo que ainda se realiza. Tratava-se
anteriormente de uma corrida profissional e hoje é a prova
de maior prestígio, dificuldade, tradição e
participação do ciclismo amador internacional.
Para qualificar-se, cada participante
teve que completar a série de Brevets do Les Randonneurs
Mondiaux (braço internacional do Audax Club Parisien), que
certifica todos os brevets. Pedaladas de 200, 300, 400 e 600 km.
No Brasil, oficialmente desde janeiro
de 2003, existe o Clube Audax Brasil (CAB), instituição
filial do Les Randnneurs Mondiaux (LRM), que é o único
clube autorizado no país e, por enquanto, em toda América
do Sul, para qualificar ciclistas para o PBP.
O calendário do CAB é
rico em eventos de longa distância e também habilita
ciclistas para outros eventos de 1200 km no mundo, como o London
- Edinbuurgh - London (Audax UK), Boston - Montreal- Boston (RUSA),
Rocky Mountains 1200 (BC Randonneurs, Canadá), Sofia - Verna
- Sofia (Audax Bulgária), entre outros.
Todo tipo de veículos propulsados
unicamente pela musculatura humana é permitido (HPV): tandems,
tandems triplas, triciclos, triciclos tandem, mountain bikes, speeds,
tourings e bicicletas audax (uma espécie de touring de cromo
muito leve com pára-lamas e dínamo, muito usada nos
audax franceses e ingleses).
Competidor descansa
durante a prova
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O equipamento obrigatório
é levado muito a sério por questões de segurança
e pelo fato de se pedalar muito durante a noite. São necessários
coletes refletores, duas luzes traseiras e duas luzes frontais com
lâmpadas sobressalentes. Não é permitido nenhum
tipo de apoio móvel. Somente nos postos de controle o participante
pode receber ajuda externa.
A maioria dos participantes não
tem nenhum tipo de apoio e carregam uma certa bagagem: capa de chuva,
casaco, câmeras, ferramentas, pilhas, kit farmácia
e alimentos energéticos.
MINHA PRIMEIRA VEZ
Nesta 15ª edição
(18 a 22 de Agosto), eu tive a oportunidade de participar e testemunhar
a grandiosidade desta tradição francesa.
No dia 15 de agosto viajei a Paris
para me encontrar com as delegações canadense, japonesa
e irlandesa com quem compartilhei hotel. Conheci vários anciennes
(veteranos do PBP), especialmente os canadenses que vem participando
do evento há 20 anos.Os japoneses com 20 membros e eu (único
brasileiro representando o Brasil e toda a América do Sul),
éramos novatos.
No metrô me encontrei com parte
da equipe sueca e com alguns americanos. Na atmosfera respirava-se
ciclismo e aventura. Todos preparando suas máquinas para
o dia seguinte: o dia 17 de Agosto, véspera do evento e dia
do controle de máquinas e equipamentos obrigatórios
pelo ACP.
As belas paisagens são
uma}
constante na PBP
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Foram três horários
de largada: o grupo das 80 horas largou às 20h, o das 90
horas às 22h do dia 18, em levas de 500 a cada 15 minutos
e finalmente, o grupo das 84 horas largou às 5h am do dia
19.
Ao som de gaitas bretãs, arrepiados,
na concentração anterior à largada, mais de
4 mil ciclistas de 25 países se prepararam para fazer esta
odisséia, este teste de endurance e de fé, que os
levara até Brest, região costeira da Bretanha, Le
Finisterre (Fim do Mundo). Estes atletas atravessaram a Ile de France
e a Normandia e regressaram de volta a Paris em menos de 90horas.
Larguei às 22h30, na terceira
leva. Pedalei forte na primeira hora, tentando acalmar um pouco
a minha ansiedade. À noite a estrada se destacava com uma
fileira interminável de luzes vermelhas.
Já nas primeiras vilas os
torcedores aplaudiram. Estavam presentes durante todo o percurso.
Ofereciam água à vontade, café, bolos, biscoitos
e inclusive lugares para se dormir.
O povo francês participa muito
ativamente. É impressionante, motivador e emocionante como
nas vilas, a qualquer hora do dia ou da noite, via-se torcedores
gritando bonne route e bonne courage. Velhinhas
e crianças a beira da estrada aplaudiam ao passar de cada
ciclista, vibrando e indicando o caminho através das vilas
como se fossemos Indurain, Merckx ou Armstong
Trecho no interior francês
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Pedalei as primeiras 24 horas parando
pouco e sem dormir, até Loudeac, a 452km da largada. Este
posto de controle estava lotado e parecia um campo de refugiados.
Não havia vaga para dormir nos leitos da organização
e perdi mais de uma hora na fila do bandejão,
fora o grande frio. Depois de jantar, fui instintivamente para baixo
de uma mesa, coloquei os tampões de ouvido e a máscara
de dormir (parte do equipamento para se poder dormir em qualquer
lugar e momento) - como o faziam muitos.
Ali perdi a hora. Foram 4 horas dormindo,
mais duas em filas, chegadas e saídas
foram 6 horas
do meu precioso tempo. Fiquei preocupado e parti de Loudeac às
4 e pouco da manha. Só parei para dormir de novo em Titeniac,
voltando de Brest, depois de 407km pedalados (859 no total).
Consegui um leito e dormi 3 horas
depois de jantar. Já bastante cansado consegui chegar em
Vilaines la Juhel com 1002 km percorridos. Fui direto para a enfermaria,
pois estava com os tornozelos inflamados e uma dor aguda no tibial
que me preocupava. Recebi uma massagem que me ajudou. Neste ponto
já estava tomando antiinflamatório via oral. Decidi
dormir mais um pouco depois de uma ducha e uma refeição.
Depois de 2h30 de sono parti por volta das 22h rumo a Paris.
Restavam somente 223km, mas este
trecho foi o mais sofrido, pois os efeitos da privação
de sono e exaustão manifestavam-se fortemente e neste ponto
tinha se tornado muito doloroso pedalar sentado.
Acabei por baixar muito a média
de velocidade e comecei a girar mais para preservar as pernas. Parei
nos últimos dois pontos de controle da cruz vermelha para
receber massagem e poder continuar.
Neste trecho final, o panorama na
estrada era o de apos uma batalha. Dezenas de ciclistas desmaiados
à beira da estrada tentando recuperar forcas para continuar.
Eu fiz duas paradas de 15 minutos para dormir e para poder, completamente
exausto, continuar.
Cheguei as 13h19 do dia 22 de agosto
com o meu hodômetro marcando 1244km em 86h49min. Fui diretamente
para o hotel e dormi 15 horas em seguida.
A corrida prossegue noite
adentro
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O trajeto e belíssimo e em
sua maioria, composto por estradas secundárias com pouquíssimo
trânsito. Em cada cruzamento havia flechas indicando o percurso
e mais de 1500 voluntários que trabalham em apoio ao evento.
Motos da organização coordenavam o trânsito
em cruzamentos perigosos.
Foi uma experiência maravilhosa
e uma grande aula sobre ciclismo de longa distância. Uma oportunidade
de conhecer pessoas especiais e fazer amigos. É incrível
o bom humor de todos! Não escutei uma reclamação
em 1244km!
Se você quer participar de
eventos de longa distância no Brasil e no mundo, entre em
contato conosco no CAB, pelo site: www.audaxbrasil.com.
Para conhecer mais sobre a história
do PBP, leia este artigo [www.rusa.org/pbphistory.html]
e para saber mais sobre o ciclismo de longa distancia entre aquí
entre
aqui.
O próximo Paris - Brest -
Paris será em 2007. Até lá!
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