Recuperação: como
deixar uma Phillips 1948 em forma
Acompanhe a incrível história
de uma apaixonado pelas inglesas

A Phillips, ano 1948, modelo feminino, ficou nova em folha
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A década de 40 chegava ao
fim. Os países europeus tentavam juntar os pedaços
que haviam sobrado dos bombardeios e iniciavam a dura escalada da
reconstrução. Na Europa, a segunda grande guerra não
teve vencedores.
De um lado países física
e financeiramente arrasados com o rótulo de derrotados. Do
outro lado, os países oficialmente considerados vencedores,
mas quase tão arrasados física e financeiramente também.
Sob esse panorama, cada centavo poupado de uma forma ou de outra
deveria ser canalizado para a reconstrução.
A Inglaterra comandou o bloco vencedor,
mas as dificuldades financeiras faziam com que automóveis
e combustíveis fossem mercadoria para poucos. A necessidade
de transporte de baixo custo levou à escolha óbvia...
As bicicletas, que já eram bastante queridas na Inglaterra,
tornaram-se ainda mais desejadas, já que representavam a
melhor solução para o transporte de baixo custo.
Tal demanda tornou a indústria
ciclística britânica ainda mais ativa, fortalecendo
as empresas que já eram conhecidas antes da guerra e ensejando
a criação de novas empresas. Dois pólos ciclísticos
se formaram na Inglaterra, Nottingham e Birmingham. Os maiores expoentes
foram a Raleigh de Nottingham e a Phillips de Birmingham.
Muitos autores consideram a Raleigh
como a melhor bicicleta inglesa de todos os tempos. Grandes quantidades
de bicicletas Raleigh foram exportadas para os EUA, mas curiosamente
esta não foi a marca mais popular no Brasil. Em nossas terras,
as Phillips foram muito mais populares.
Durante a década de 50, a
Inglaterra teve cerca de 60 fabricantes de bicicletas. Chegou a
década de 60 e os cintos foram sendo gradualmente desapertados
na Europa. Os menores fabricantes ingleses, ou fecharam ou foram
incorporados pelos maiores.
No final da década de 60,
a holding TI (Tube Investments) que controlava a BCC (British Cycle
Corporation, dona das marcas Phillips, Hercules, Norman e Sun),
adquiriu o controle acionário da Raleigh. Os tempos já
não favoreciam a indústria ciclística tanto
quanto antes e a TI/BCC optou por manter uma única marca.
Foi escolhida então aquela
que tinha o melhor apelo no mercado norte-americano: a Raleigh.
Com isso a marca Phillips existiu por mais alguns anos, mas a fabricação
foi deslocada para Nottingham, na fábrica Raleigh, sendo
que a Phillips passou à condição de bicicleta
de segunda linha, que não poderia fazer sombra para a prima
rica.
Em meus tempos de garoto, minha bicicleta
era uma Caloi Berlinetta dobrável, ainda do modelo antigo,
com guidão do tipo gaivota. Em meus passeios pelo bairro
do Campo Belo em São Paulo, tinha a companhia de um amigo
que não tinha bicicleta, mas usava a bicicleta do pai dele.
Eram incríveis as peripécias
do garoto para se manter sobre a imensa bicicleta preta com rodas
de 28 polegadas, de uma marca que para mim parecia marca de televisão...
Phillips! O mais fascinante naquela enorme bicicleta preta era uma
pequena alavanca de comando do câmbio da bicicleta... Isso
mesmo, um câmbio de 3 marchas escondido dentro
do cubo traseiro.
O tempo passou e nunca mais vi uma
Phillips. Apenas de comentários de pessoas mais velhas que
falavam das Phillips que tiveram no passado... Cresci e me mudei
para a cidade de São Carlos, no interior do Estado de São
Paulo, onde fui para a universidade. Um dia conheci uma garota e
começamos a namorar. Na terceira vez que fui à casa
dela, minha atenção foi chamada por algo pendurado
no teto da garagem. Uma bicicleta PHILLIPS!
A história era bastante interessante...
Em 1950, a bicicleta foi comprada numa livraria de São Carlos
(na época já existia a tendência de vender bicicletas
em lojas estranhas) para ser presenteada a uma garotinha
de 12 anos. Em 1958, a garotinha tornou-se uma jovem que casou-se
e teve duas filhas. Ambas aprenderam a pedalar na Phillips e a mais
nova tornou-se minha namorada. Casamos, tivemos filhos e um dia
criei coragem e pedi a velha Phillips para minha sogra. Você
vai reformar? Se for, pode levar, é toda sua...
Reforma, Recuperação
ou Restauração?
Já tive carros antigos e sempre
me preocupei em deixá-los na condição de maior
originalidade possível. No ramo dos carros antigos, existe
uma clara distinção entre reforma, recuperação
e restauração. Reforma é a operação
que visa tornar o veículo utilizável sem maiores preocupações
com originalidade, sendo a idéia básica a operação
adequada do veículo.
Recuperação por sua
vez, é uma reforma feita com critérios um pouco mais
rígidos em relação à originalidade.
Não se aceita peças que não sejam pelo menos
muito parecidas com as originais. A restauração por
sua vez, é um processo extremamente delicado que deve ser
realizado com rigor científico, arqueológico mesmo,
pois não se aceitam nem mesmo simples parafusos produzidos
em época posterior. É comum em restaurações,
o desmanche de vários veículos para conseguir todas
as peças necessárias para a produção
de um único.
Uma restauração estava,
portanto, fora de minhas possibilidades financeiras, mesmo se tratando
de uma bicicleta. Mas a curiosidade histórica me afastou
totalmente da idéia de uma reforma. Optei então pelo
caminho da recuperação.
O primeiro passo foi datar a bicicleta.
Enviei um e-mail para a Raleigh pedindo uma posição
caso houvesse a possibilidade de datação. A resposta,
enviada três dias depois foi impressionante: Bicicleta
Phillips modelo feminino standard, fabricada em julho de 1948, parte
de um lote embarcado com dois destinos, Brasil e Argentina.
O primeiro passo estava dado.
O Estado Geral
A bicicleta havia sido repintada
na década de 70 e tinha sua originalidade afetada em dois
pontos: O selim original de 3 molas (provavelmente um Brooks B-33
ou B-73) havia sido substituído no passado por um horrendo
selim nacional e não havia nem sinal dos pedais originais.
Depois de desmontada, a primeira surpresa desagradável: O
aro dianteiro estava totalmente perfurado pela corrosão.
Segunda surpresa desagradável:
A Phillips usava os mesmos 72 raios que se usa até hoje,
mas com uma distribuição no mínimo insólita:
32 raios na roda dianteira e 40 na roda traseira. Saí em
campo procurando os aros. Em minha inocência, cheguei a imaginar
que seria uma tarefa fácil.
Foram dois anos de tentativas infrutíferas
até que um amigo lojista fazendo uma faxina em sua loja encontrou
um par de aros do tipo F (aros sem as paredes laterais,
específicos para freio âncora a varão) para
rodas de 28 polegadas, que nunca haviam sido usados. Detalhe: Eram
aros específicos para 36 raios cada. Nessas alturas, eu já
estava topando qualquer parada, até que passando
em Jaú, fui informado de uma bicicletaria que tinha bastante
peças antigas.
Lá consegui um par de pedais
originais 100% novos e o mais incrível: um cubo traseiro
com câmbio de 3 marchas embutidas, um legítimo Sturmey-Archer
inglês!

Os câmbios ingleses Sturmey Archey são
produzidos desde 1903
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O câmbio Sturmey-Archer
A Sturmey-Archer nasceu na Inglaterra
em 1903, quando foi fundada por Henry Sturmey e James Archer. Pouco
tempo depois, a indústria passou ao controle da Raleigh,
tendo se mantido assim até o ano 2000, quando foi vendida
para a Sun Race, de Taiwan, todo o maquinário foi levado
para lá, onde a produção já foi retomada.
Identificar um câmbio S-A,
é simples, pois no lado externo de sua carcaça é
gravado o modelo do câmbio, o mês e o ano de fabricação.
Quando tirei a sujeira do cubo, vi as informações:
Sturmey-Archer AW / 04 / 48. Era um modelo AW (o mais
popular dos S-A, fabricado até hoje.) produzido em abril
de 1948, apenas três meses antes da velha Phillips. Ao contar
os furos nas flanges, confirmei: 36 furos. Com os aros para 36 raios,
a operação ia ser finalmente iniciada.
Aberto o cubo, constatei uma única
(mas extremamente importante...) peça quebrada: o slide
clutch ou cruzeta de engate. Graças a um grande amigo,
o Eng. Fernão Porto e seus contatos, consegui um clutch
novo em folha e original (todas as peças Sturmey-Archer possuem
o monograma S-A gravado nelas!)
A Recuperação
Daí pra frente, tudo resumiu-se
ao tradicional. Mandei pintar o quadro, o garfo, o bagageiro e os
pára-lamas. Cuidado especial foi tomado em relação
às peças cromadas. Elas devem ser decapadas eletroliticamente
(uma galvanoplastia invertida), polidas e recromeadas, num processo
que é composto de três banhos galvanoplásticos:
o primeiro banho é o de cobreação, o segundo
de niquelação e o último a cromeação,
propriamente dita.
Todo o trabalho foi realizado aqui
em Bauru no setor de cromeação da AMR, um fabricante
de peças ciclísticas. É importante ressaltar
que várias peças vinham com a marca Phillips timbrada
e muito cuidado teve de ser tomado no polimento para não
remover as marcas. Para poupar o leitor dos detalhes menos interessantes,
vou contar apenas alguns fatos interessantes da caça
ao tesouro...
O elegante top tube em curva
é perfeito para o público feminino
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Quadro
Um quadro do tipo feminino, sem o
top tube (o tubo que vai da caixa de direção
até a fixação do selim), ou melhor, com um
top tube recurvado, que sai da junção da caixa de
direção e desce em arco indo encontrar o seat tube
(o tubo que sustenta o canote do selim) cerca de cinco polegadas
acima do movimento central. Sua construção é
em aço carbono norma 1020 com junções em lugs
(cachimbos) soldados com solda oxi-acetilênica.
Curiosidades: A gancheira
traseira é do tipo track, na horizontal com abertura
por trás (semelhante aos quadros BMX atuais). Esse arranjo
permite a existência de um engenhoso sistema de tensionamento
da corrente que utiliza um parafuso de cada lado (semelhante às
motos atuais).
As junções dos seat
stays (os tubos que vão da fixação do canote
até o eixo traseiro) não são soldadas ao quadro
e sim parafusadas. Em outras palavras, é possível
remover os seat stays completamente. Uma das finalidades dessa remoção
é a retirada da corrente sem precisar romper seus rebites.
Esse tipo de construção é adotado até
hoje no Japão nas bicicletas de passeio e é denominado
por kamakiri (louva-deus em japonês)...

A coroa tem a inscrição Phillips,
típico das bikes feitas em Birmingham
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Crankset/Corrente
Os cranks (pedivelas)
são de aço cromado e a fixação ao eixo
do movimento central é por chavetas. O movimento central
tem suas caixas rosqueadas no padrão britânico, com
1 3/8 de polegada de diâmetro e rosca de 24 fios por polegada
de passo.
A caixa direita é fixa por
rosca esquerda e a caixa esquerda é fixa por rosca direita.
Esse padrão, diga-se de passagem, tornou-se o padrão
internacional atual, sendo adotado pela ISO.
Curiosidade: No passado a
Raleigh utilizava o mesmo diâmetro, mas com roscas de 26 fios
por polegada de passo, o que tornava seu sistema incompatível
com o resto do mundo. O padrão Raleigh desapareceu (felizmente)
deixando lugar para o padrão Phillips.
A coroa é uma peça
especial. Recortadas/vazadas na chapa de aço estão
as letras que compõe a palavra PHILLIPS. Segundo consta,
só as Phillips de Birmingham vinham com essa inscrição.
A corrente era o padrão de época, com 1/8 de polegada
de largura com pinos e buchas. Um elo especial, com um clip, permitia
a montagem e desmontagem sem precisar de uma prensa rebitadora.

O farol Philidyne, da Philips holandesa, fabricante
de eletrônicos
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Farol
Minha Phillips não teve um
farol no passado, mas em minhas viagens encontrei um conjunto Farol/Lanterna
traseira/Dínamo, fabricados na década de 50.
Detalhe: Estavam totalmente
novos e nunca haviam sido utilizados, estando ainda embrulhados
em papel impermeável e nas caixas originais, tendo inclusive
dois novelos de fios elétricos para instalação
e manual de instruções em português.
Lembram quando falei que a marca
da bicicleta parecia marca de televisão? O conjunto em questão
era da marca PHILIPS (com um L só), a Philips
da Holanda, que fabrica aparelhos eletrônicos e lâmpadas
até hoje. O modelo do conjunto foi bastante famoso na época:
Philidyne. Um dínamo com carcaça de alumínio
polido, capaz de gerar 6 volts com potência de 3 watts em
corrente alternada. O farol é uma belíssima peça
cromada, com duas lâmpadas (luz alta e baixa) e chave comutadora
no topo do farol.
Mais um detalhe interessante: Junto
à chave comutadora, existe um símbolo da Philips,
o globo com três linhas sinuosas e quatro estrelas. O símbolo
é de vidro vermelho e está alinhado com as lâmpadas
do farol. Quando o farol está ligado, o símbolo se
ilumina sendo visível no escuro...
Pedais
Os pedais na década de 50
eram desmontáveis para manutenção. Um tubo
central servia como caixa de rolamentos e alojamento do eixo do
pedal. Nas extremidades do tubo, duas chapas que são as extremidades
dos pedais. Paralelas ao tubo e presas às duas chapas estão
duas barras de borracha maciça recartilhada. São pedais
simples e robustos e seu tamanho avantajado, os torna confortáveis
para qualquer tamanho de pé.
Selim
As bicicletas inglesas da década
de 50 utilizavam uma única marca de selins: Os famosos selins
Brooks, que usavam apenas dois materiais em sua fabricação,
aço e couro. As Phillips eram fabricadas com dois modelos
possíveis, o B-33 com duas molas helicoidais verticais traseiras
e uma mola tipo caracol dianteira (funciona como a mola de um alfinete
de segurança) ou o B-73, com três molas helicoidais
verticais (duas traseiras e uma dianteira).
Em outra excursão em busca
de peças antigas, encontrei em Pederneiras (cidade que fica
a 25 km de Bauru, no interior de SP), os restos mortais de um B-73.
Desmontei totalmente o selim, mandei jatear as peças e realinhar/recalibrar
as molas helicoidais. As molas foram posteriormente galvanizadas
(zincadas) e todo o restante da estrutura do selim foi pintada em
esmalte preto.
O aspecto curioso de tais selins,
é que eles não são estofados. Materiais como
espuma de nylon, poliuretano, gel ou elastômeros aqui são
dispensáveis. A cobertura deles é feita em sola de
couro moldada em formato de selim. A sola é presa à
estrutura e esticada através de uma parafuso especial.
Tentei contactar a Brooks Saddles
para saber da disponibilidade de uma sola nova, mas apesar de ter
um catálogo enorme de peças de reposição,
a única peça não disponível é
a sola. Como já tive experiências no passado moldando
sola para bainhas de facas, resolvi eu mesmo moldar a sola e o resultado
ficou até que bem razoável.
Curiosidade: A Brooks Saddles
existe até hoje. Fabrica selins da mesma maneira que fabricava
no passado. Hoje existem modelos para speed com estrutura em titânio,
mas a famosa sola moldada continua firme e forte. No ano passado,
2002, a Brooks quase fechou suas portas com apenas 23 funcionários.
Foi salva do final trágico sendo comprada pela líder
mundial de selins ciclísticos, a italiana Selle Royal.
Freios a Varão
Quem já andou numa Caloi Barra
Forte (das mais antigas) ou numa Monark Barra Circular, conhece
os freios a varão. As sapatas são fixadas a uma estrutura
denominada âncora. As âncoras são atuadas por
intermédio de hastes metálicas rígidas (os
varões) que são conectados aos manetes do guidão
por balancins.
Comparados aos modernos sistemas
de pinças como Cantilevers e V-Brakes, os freios a varão
passam vergonha. Sua eficiência é baixíssima
e a força necessária nos manetes é enorme.
Guidão
O guidão da Phillips tem o
formato geral de uma letra U, com as duas pontas voltadas
para trás. O ciclista empunha o guidão como se estivesse
segurando os cabos de uma carriola. Pode parecer estranho,
mas é uma posição extremamente confortável.
Aros, Pneus e Raios
Os aros da Phillips são do
tipo F. Suas bordas são arredondadas (viroladas),
o que simplesmente impossibilita a utilização de freios
do tipo pinça. Os pneus são de 28 polegadas de diâmetro
por uma polegada e meia de largura. Comparados aos pneus atuais
de MTB, têm duas polegadas a mais em diâmetro e meia
polegada a menos em largura.
Uma combinação ideal
para conforto em pisos das mais variadas espécies, desde
pavimento bom até estradas de terra batida. Os raios originais,
como não podia deixar de ser eram de aço zincado.
Nesse ponto, fiz uma concessão à modernidade e utilizei
raios de inox.
Bomba de Ar
O quadro da Phillips tem um par de
ganchos soldado na parte traseira do seat tube. Esse par de ganchos
é o suporte para uma bomba de ar, de aço, cromada
e com cabo de madeira (of course...).
Câmbio indexado
Não vou entrar em detalhes
sobre o câmbio planetário, pois seu funcionamento é
bastante complexo, o que acabou extinguindo-o no Brasil (no exterior
ele continua firme e forte, sendo produzido pela SRAM (EUA/Alemanha),
pela Sturmey-Archer (Taiwan), pela Shimano (Japão) e pela
Rohloff (Alemanha).
Essencialmente, é um câmbio
onde as marchas são denominadas por letras: L (Low), N (Normal)
e H (High). A N(ormal), tem relação 1:1, em que, para
cada volta do pinhão corresponde a uma volta da roda (também
conhecida como relação 100%).
A L(ow) é uma marcha reduzida,
com relação 75%. Assim, para cada volta completa do
pinhão corresponde a 0.75 voltas da roda. A H(igh) é
uma marcha desmultiplicada, com relação 133%, onde
uma volta completa do pinhão corresponde a 1.33 voltas da
roda.
A lógica era muito simples.
Para transitar no plano, a marcha N(ormal) correspondia a uma bicicleta
comum sem marchas. Em trechos de aclive, a marcha L(ow) permitiria
ao ciclista vencer a subida com menos esforço e para aproveitar
descidas ou trechos planos mais embalados, a H(igh) significaria
um algo mais.
O comando do cubo é feito
por uma pequena alavanca em forma de gatilho montada no guidão.
Na alavanca existe um dial que mostra a letra correspondente
à marcha engatada. As marchas podem ser trocadas com a bicicleta
em movimento ou parada, pedalando ou não (se você para
no semáforo em H(igh), pode tranqüilamente mudar para
L(ow) sem precisar pedalar). Cada marcha tem seu ponto exato, na
alavanca. Um câmbio indexado em 1948!
Finalizando
Muita gente se mostra perplexa em
relação ao fascínio que as bicicletas causam
em seus admiradores e proprietários. Em minha opinião,
é uma paixão quase humana. Quando vi uma Phillips
pela primeira vez, me apaixonei por ela. Mas, o ser desejado (como
muitas vezes acontece...) desapareceu deixando apenas lembranças.
Muitos anos depois, reencontrei
essa paixão, mas dessa vez ela veio em dose dupla. Uma bicicleta
e minha mulher. Ambas me trouxeram de volta à vida e me deram
filhos magníficos. A Phillips me trouxe de volta à
vida, pois, quando iniciei o trabalho, estava afastado do pedal
há mais de 12 anos.
Voltei a pedalar e de lá pra
cá, a família aumentou. Hoje tenho um tandem (para
andar com minha mulher), construí uma bicicleta reclinada,
reformei minha velha Caloi 10 (transformando-a numa street
fixed gear) e construí um monociclo no qual já
consigo andar uns dois quarteirões.
E tem um novo filho
que vai ser o próximo da fila: Quando se restaura bicicletas
antigas, faz-se muitas amizades e conhece-se muita gente nova. Este
ano, comprei numa liquidação de encerramento de uma
república de estudantes, uma velha Bristol com rodas de 28
polegadas e freio contra-pedal.
Ela está pendurada no bicicletário
do prédio e cada vez que me vê, pede que eu a reconduza
para seu habitat natural...
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