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Especial

Restauração (2) - Como se faz a desmontagem
Texto e fotos:
Eduardo L. P. Jr.

No último artigo (veja matéria), falamos sobre identificação e datação. Chegou a hora de desmontar a bicicleta para dar início aos trabalhos. Antes de atacar o assunto desmontagem, vou falar um pouco (juro que vai ser pouco mesmo!) sobre sistemas de medidas e ferramentas.

A imensa maioria das bicicletas antigas foi fabricada em países europeus. As que adquiriram melhor reputação no mercado internacional, foram as inglesas das décadas de 40, 50 e 60. Mas as italianas, francesas, alemãs e suecas também não ficaram atrás. Essa "ciclodiversidade" criou um problema para restauradores.

Os britânicos adotavam o sistema colonial de medidas e naturalmente as bicicletas britânicas utilizam 100% de suas medidas no sistema colonial. Mesmo uma polegada sendo menor que um metro, ainda assim é necessário dividi-la para obter medidas menores.

Temos por hábito fracionar o metro em submúltiplos decimais, como o milímetro, que também é subdividido em décimos, centésimos e milésimos. As polegadas, entretanto, são subdivididas em frações binárias, i.e., meios, quartos, oitavos, dezesseis-avos e assim sucessivamente até os 128 avos.

A alta reputação obtida pelas bicicletas inglesas consagrou de tal forma o sistema colonial, que até hoje, muitas peças ciclísticas obedecem ao padrão britânico.

Ferramentas e Utensílios

Para escolher as ferramentas que serão utilizadas na desmontagem, é necessário medir cada parafuso antes de escolher a chave necessária. O instrumento de medida que devemos usar é o Paquímetro, também chamado de Calibre de Vernier. Não vou abordar detalhes da utilização de um paquímetro, pois isso fugiria ao escopo deste texto. Nos links do final do texto, relaciono alguns sites que falam a respeito.

Se você está restaurando uma bicicleta inglesa, providencie de imediato chaves de boca com medidas em polegadas. As medidas mais comuns em bicicletas inglesas são 3/16 ", 1/4", 5/16 ", 3/8", 7/16 ", 1/2", 9/16 ", 5/8" e 3/4 ". Se a restauração for de uma bicicleta fabricada em um país que utilize o sistema métrico decimal (França, Itália, Alemanha e Suécia), as chaves de boca indicadas vão de 5 até 16 mm. Será necessária ainda, uma chave de boca grande, para desmontar a caixa de direção. O tamanho dela, porém, não é padrão e a providência correta é medir a contraporca da caixa de direção antes de providenciar a chave de boca respectiva.

Uma lata de desengripante em spray (White Lub, WD-40 etc.) é importantíssima, pois muitas peças podem estar engripadas. Atenção! Algumas medidas de chaves de boca milimétricas são "parecidas" com as medidas em polegadas. Evite misturar sistemas, pois as cabeças de parafusos ou as porcas podem ser danificadas. Uma bancada com uma boa morsa (número 3 ou maior), é importantíssima.

Existem ainda, ferramentas de uso específico em mecânica ciclística, como por exemplo, prensas rebitadoras de correntes, extratores de movimento central, chaves de raios, chaves de boca finas para cones de cubos, chaves de corrente, extratores de roda livre etc., que não têm interesse maior nesta etapa, visto que se destinam a montar/desmontar componentes e isso será visto adiante.

Antes de começar a desmontagem, providencie de quatro a seis "latinhas" de filme fotográfico, de quatro a seis vidros com tampa roscável (tipo de maionese 250 g), dois ou três frascos plásticos vazios de achocolatado em pó (com tampa roscável) e duas ou três caixas de papelão (prefira caixas com a montagem interna colada, para evitar que peças pequenas se percam entre as abas). Tenha em mãos também, algumas etiquetas auto-adesivas e uma caneta esferográfica. Todos esses recipientes, servirão para guardar as peças que forem sendo retiradas.

Vai Começar!

Leve a bicicleta para um lugar amplo e bem iluminado e de preferência com um piso de cor clara. Pode parecer desnecessário, mas se alguma peça cair no chão, localizá-la sobre um piso claro e iluminado, é dúzias de vezes mais fácil. Lembre-se que muitas peças, são únicas e podem eventualmente não existir mais. Ao retirar um componente ou desmontar alguma parte, fixe a vista atentamente, pois peças pequenas têm a péssima mania de pingar no chão e rolar para longe da vista.

Inicie o trabalho pela desmontagem básica, i.e., retirando componentes de manutenção normal, como rodas, pedais, selim, guidão etc. Geralmente tais componentes não oferecem grande dificuldade de remoção, sendo fixos apenas por porcas/parafusos. Ao retirar os pedais dos cranks (pedivelas), lembre-se que o pedal esquerdo utiliza rosca esquerda, i.e., solta-se girando no sentido horário.

Se sua bicicleta é inglesa ou utiliza sistema inglês de caixa de centro de pedais, os cranks serão do tipo chavetado (cottered cranks). Afrouxe as porcas das chavetas até que a ponta roscada das chavetas fique nivelada abaixo da rosca das porcas. Apóie um pedaço de madeira nas porcas e golpeie a madeira com um martelo de mecânico ("martelo de bola"). Procedendo assim, você não danificará nem as porcas e nem as chavetas.

Se a caixa de centro de sua bicicleta for do tipo monobloco (movimento central "sueco"), não se preocupe em desmontá-la nesse instante. Guarde as peças grandes (selim + canote, guidão, pedais etc.) em caixas de papelão. As porcas grandes podem ser guardadas nos potes plásticos com tampa roscada. A menos que você tenha uma memória absolutamente fotográfica, não confie nela. Rotule os recipientes com as etiquetas auto-adesivas. Procure organizá-los de maneira coerente. Se nessa etapa surgir alguma peça com inscrições que não puderam ser decalcadas como foi mencionado no primeiro artigo, aproveite a oportunidade e faça o decalque guardando-o na pasta de documentação.

Desmontando a "Caixaria"

Existem dois pontos de desmontagem extremamente delicados. O primeiro, é a caixa de direção. 100% das bicicletas antigas utilizavam caixa de direção com rosca (naquela época ainda não existiam as caixas do tipo "aheadset").

Existem diversas variantes de caixas de direção com rosca. O mais importante na desmontagem delas, é observar a seqüência exata das peças para não ter problemas posteriores de montagem. Se necessário, esboce um esquema com a seqüência correta.

Se sua bicicleta for uma Phillips, triplique a atenção na caixa de direção (foto), pois tem mais peças que o padrão e todas têm uma posição única, não podendo ser trocadas mais tarde. Desmonte a caixa de direção com extremo cuidado.

Atualmente, as caixas de direção têm colares de esferas, que são anéis que mantém as esferas juntas. Antigamente porém, essa prática não era comum, pois muitos fabricantes colocavam as esferas uma a uma. Se sua bicicleta for desse tipo, uma desmontagem afobada vai causar uma verdadeira chuva de esferas para todos os lados. Coloque uma das caixas de papelão por baixo se quiser preservar todas as esferas. Se perder algumas, não há razão para pânico. Todas as medidas de esferas são facilmente encontráveis em bicicletarias.

Depois de desrosquear a contraporca, desrosqueia-se o cone superior e remove-se o garfo do quadro. Duas peças importantes da caixa de direção, são fixadas sob pressão no quadro. São as "bacias" ou pistas da caixa de direção. Para removê-las do quadro, martele-as utilizando um bloco de madeira.

Para finalizar a caixa de direção, observe o cone inferior. É um anel que é fixado sob pressão na espiga do garfo e apoiado no ombro (onde a espiga se bifurca nas duas pernas do garfo). Retire-o e guarde junto com as demais peças da caixa de direção. Pode ser necessário utilizar o martelo (sempre junto com o bloco de madeira).

A segunda caixa a desmontar, é a caixa de centro ou caixa de movimento central de pedais. Se sua bicicleta utilizar o sistema britânico, você já removeu os cranks (pedivelas) e basta desmontar a caixa de centro. Neste sistema, inicia-se a desmontagem pelo lado esquerdo. A "bacia" esquerda, tem um anel-contraporca que deve ser removido primeiro. Uma vez removido, a "bacia" sai com certa facilidade. A bacia do lado direito, utiliza rosca esquerda, devendo ser afrouxada com giro horário.

O diâmetro e passo (distância entre dois filetes de rosca consecutivos) da rosca da caixa de centro são padronizados, mas o formato da superfície de aperto não é. Podem ser necessárias ferramentas especiais para a desmontagem da caixa de centro. Se encontrar dificuldades nessa operação, não improvise, leve a uma bicicletaria para desmontar.

A mesma observação em relação às esferas da caixa de direção é válida aqui. Desmonte com extrema atenção para não perder as esferas. Aqui porém, as esferas são de maior diâmetro.

Se a caixa de centro for do tipo monobloco (foto) ou sueco, uma única porca (geralmente do lado direito), ao ser removida libera todo o conjunto.

Atenção apenas para a seqüência de montagem das peças.

Desmontando os Freios

Eram comuns no passado, os sistemas de freios a varão/âncoras (foto). Tais sistemas, são verdadeiros quebra-cabeças. A desmontagem é bastante simples, mas esquematize a seqüência de desmontagem, para que o quebra-cabeças não seja tão complicado de montar.

Desmontando as Rodas

Conforme o estado geral das rodas, pode ser necessária ou não a desmontagem total. Só se aconselha a desmontagem total porém, se os raios estiverem em mau estado e se os aros tiverem de ser re-cromeados. Com uma chave de raios, a desmontagem é bem simples, bastando afrouxar as cabeças dos raios (niples) e retirá-los um a um.

Antes de desmontar a roda traseira, porém, é necessário desmontar a roda-livre (catraca). Essa operação requer uma chave extratora especial e deve ser feita numa bicicletaria. Após a remoção da catraca, pode-se desmontar a roda traseira da mesma forma que a dianteira.

A desmontagem está completa? Quase... Resta apenas abrir a corrente, que está presa ao quadro. Para abri-la, é necessária uma prensa rebitadora de corrente. Se você não tiver uma e/ou não tiver interesse em adquiri-la, leve o quadro a uma bicicletaria e peça que abram a corrente.

Links Importantes

Sala de Física: Página que mostra um paquímetro animado (Java Applet).

Paquímetro: Página que ensina a utilização básica do paquímetro.

Park Tool: Fabricante das melhores ferramentas ciclísticas do mundo. Em todas as ferramentas expostas, existem fotos exibindo a ferramenta em utilização real.


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