O paulista
Klaus Poloni é um
dos poucos construtores de quadros no Brasil
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Bike feita a mão
Passo a passo, a construção
de uma bike
Uma bike feita sob medida é
o sonho de todo ciclista mais exigente, que precisa de uma bicicleta
com caimento perfeito e que aproveite toda a energia produzida pelo
ciclista e a transforme em movimento.
Além da exclusividade, uma
bike feita de maneira artesanal pode trazer inúmeras vantagens,
entre elas, maior durabilidade do quadro.
O Bikemagazine visitou o ateliê
do artesão Klaus Poloni em Pedreira (SP), e acompanhou o
processo de construção de uma bicicleta produzida
sob medida.
ENTREVISTA
O primeiro passo é conversar
bastante com o cliente para obter o máximo de informações
possíveis sobre os objetivos do comprador, seus hábitos
de pedalada e a filosofia de vida da pessoa. Essa entrevista é
muito importante para definir a geometria e, portanto, o comportamento
da bike a ser construída.
O artesão compara bikes com
carros de corrida. "Sei que alguns ciclistas tiveram vários
desencontros com diversas marcas. A publicidade dos fabricantes
de bicicletas sempre procura vender um carro de Fórmula 1
ao cliente. Fazem uma cópia da bicicleta que o Armstrong
disputou o Tour de France e querem vender para todo mundo. A geometria
da bicicleta dele pode não funcionar para você, para
o seu caso, para o seu objetivo, para o seu mundo, para o nosso
asfalto. As propagandas são extremamente lindas, mas a satisfação
de dirigir um carro de F-1 é bem duvidosa". Explica.
Segundo Klaus, um carro pode ser
esportivo, sem necessariamente ter os inconvenientes de um F-1.
Um ciclista competidor pode muito bem ter um quadro feito sob medida
que seja bastante versátil e encare tanto competições
quanto pedaladas épicas de 150-200 km.
"Uma boa bike, não precisa
ser a melhor do mundo para subir montanha, mas também não
precisa ser a pior. Ela deve ser boa para subir e descer serras,
boa para sprints e também boa para longas distâncias.
Enfim, ela deve ter um bom compromisso entre as várias necessidades
do ciclista e ser uma excelente ferramenta para várias aplicações".
MEDIDAS
O passo seguinte é tirar
as medidas do cliente. Com paciência, são medidos o
braço, antebraço, perna, tronco, o cavalo e o peso.
A soldagem dos tubos é
feita com precisão para manter o quadro alinhado
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Como as pessoas têm relações
de medidas diferentes entre membros, as bikes feitas em série
são projetadas para atender à maioria das pessoas.
A grande diferença entre uma bike feita sob medida de outra
feita em série é exatamente essa.
Individualmente somos todos diferentes,
as nossas relações entre estatura, tamanho de fêmur,
tamanho de tronco e braço, são bem distintas. "Fábricas
constroem quadros para o geral e não para o específico",
diz Klaus.
Depois de identificar a necessidade
e entender a filosofia de vida do cliente, e com as medidas do cliente
em mãos, é hora de pensar na melhor geometria de quadro.
Anotações e esboços
são feitos a partir das conversas com o cliente. Os ângulos
e comprimentos de tubos é que vão definir o comportamento
da bicicleta depois de pronta.
É com base na entrevista com
o ciclista que Poloni define se o ângulo da caixa de direção
será agressivo ou conservador. Cada quadro é um caso.
"Essa fase é muito importante. Depois que eu cortar
o material não tem mais volta", explica.
DOUBLE BUTTED
Há poucos fabricantes de
tubos para a construção de bicicletas no mundo. Klaus
Poloni prefere os tubos Reynolds, feitos em Birmingham, na Inglaterra.
Há outras marcas, como True Temper, Oria, Easton, Columbus,
Dedacciai, Falck, Exel e Vitus.
Um conjunto da Reynolds traz todos
os tubos necessários na construção de um bike,
já cortados a laser. Os Reynolds usados por Klaus são
fabricados com a tecnologia conhecida como "double butted",
ou seja, possuem dupla espessura, com 0,8mm na parte mais grossa
e 0,5mm na parte mais fina.
São tubos muito resistentes
à fraturas, mas ao mesmo tempo são frágeis
e não podem cair no chão nem sofrerem pancadas, para
evitar a formação de zonas de estresse. Segundo Poloni,
tubos de alumínio são ainda mais sensíveis.
O tubo da caixa de direção
e os anéis de reforço.
Feitos a mão
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REFORÇOS
Depois de cortados os tubos é
hora de fazer a gancheira, a mão. Existem gancheiras prontas
para vender no mercado, mas Poloni, perfeccionista, prefere fazer
as dele.
De um tarugo de cromo-molibdênio,
Klaus esculpe cuidadosamente uma gancheira removível. "Se
acontecer algum acidente e quebrar o câmbio ou a gancheira,
simplesmente troca-se a gancheira e não se danifica a base
do quadro". O acabamento fica perfeito. Coisa de artista mesmo.
Terminada a gancheira, são
feitos reforços para o tubo da caixa de direção
e outro para o tubo de selim, onde se juntam os stays e onde
fica a abraçadeira para prender o canote de selim. Os reforços
são soldados com eletrodos de prata.

A caixa de centro é
aliviada no peso e recebe
furos para eliminar os
gases da soldagem
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A caixa de centro, adquirida já
pronta e com rosca, é torneada por dentro para aliviar peso
e recebe também dois furos que serão úteis
mais tarde, durante a soldagem, para eliminar os gases gerados no
momento da solda.
Para unir os tubos, antes da soldagem,
é necessário fazer um encaixe preciso no tubo. Novamente
o trabalho de artesão e escultor é que vai garantir
a perfeição na união dos tubos. O encaixe é
feito com a lima e demanda muita habilidade e paciência.
GABARITO
O trabalho de ajustagem do gabarito
é demorado e minucioso. Os tubos do quadro são presos
em um gabarito e a soldagem começa. O quadro vai nascendo
com o alinhamento perfeito. São diversas medidas para serem
ajustadas, à medida que a soldagem avança. A cada
tubo soldado, todo o alinhamento é verificado e, quando necessário,
realinhados com uma técnica especial.
Em uma bike feita em escala industrial
há várias tensões acumuladas em vários
pontos do quadro. Isso ocorre por diversos motivos, entre eles,
pela grande tolerância nas medidas. Como os tubos são
cortados em quantidade, há bastante variação
nas medidas. Posteriormente, a bike vai para uma máquina
e é soldada em questão de minutos. Esse processo produz
bastante estresse no quadro.
"Um quadro com estresse acumulado
tem bastance tração nos seus tubos. Some o peso do
ciclista com o peso do estresse acumulado no quadro e os tubos estarão
sempre sobre tensão. Em um quadro sob medida este estresse
é quase nulo. Esse é um dos motivos que um quadro
sob medida dura bem mais que um feito em série", explica.
RITCHEY
Todo construtor tem suas particularidades
e preferências. No caso de Klaus a preferência é
pelo tipo de junção do seat stay à la Tom
Ritchey, o famoso construtor de quadros e componentes para bikes
norte-americano.

Luva de reforço do tubo de selim: perfeição
de artista
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Poloni constrói uma luva,
a partir de um tubo de cromo, que envolve a cabeça do tubo
de selim. O aperto é feito por meio de um parafuso allen
que aperta o tubo de selim e une os seat stays (aqueles dois
tubos que saem do alto do tubo de selim e descem até a gancheira)
ao tubo horizontal.
Tudo vira uma peça só.
"A união fica perfeita, sem folgas. A rigidez é
maior e, portanto, a energia produzida pelo ciclista se transforma
em tração".
Esse processo é demorado e
caro. Para uma indústria que produz milhares de bikes por
dia, isso é inconcebível. A norte-americana Ritchey
faz assim, por isso seus quadros são mais caros que os feitos
em série.
ACABAMENTO
Feito o quadro, o próximo
passo é a prepraração para a pintura, com a
cor definida pelo cliente. O quadro recebe um generosa aplicação
de primer (fundo) antioxidante e posteriormente é pintado
com tinta automotiva.
Os
demais componentes como garfo, cubos, rodas e pneus, caixa de direção,
pedais, mesa, canote de selim, selim, guidão, grupo (câmbios,
pedivela, freios, trocadores de marcha e cassete) são definidos
pelo cliente e montados por Klaus.
Por último, a bike recebe
os adesivos da casa Klaus Poloni, e a bike está pronta para
rodar.
Veja também:
Klaus
Poloni - A arte de recuperar quadros
Geometria -
Como os ângulos e medidas influenciam na bike
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