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SEATTLE
TO PORTLAND
Brasileira conta como foi disputar o evento
mais tradicional do Noroeste dos EUA
TEXTO:
Luciana Lastre – FOTOS: Arquivo pessoal
A
competição “Group Health Seattle to Portland
Bicycle Classic”, ou simplesmente STP (Seattle to Portland),
é o principal evento ciclístico da região do
Pacifico Noroeste, nos Estados Unidos. A prova é considerada
pela Bicycling Magazine um dos melhores passeios em grupo dos Estados
Unidos.
A largada
é em Seattle, no Estado de Washington, e termina na cidade
de Portland, no Oregon. São 206 milhas (331.5 km) que podem
ser percorridos em um ou dois dias, opção da maioria
dos participantes. Um quarto dos ciclistas preferem disputar a prova
num só dia e o dinheiro arrecadado com as inscrições
vai para o Cascade Bicycle Club, entidade que tem como objetivo
criar uma comunidade melhor por meio do ciclismo.
HISTÓRIA
Primeiro
vamos falar do Cascade Bicicle Club, já que sem o Cascade,
não haveria a STP.
O clube foi criado em 1970 por Mike Rick Quan com o objetivo de
promover o ciclismo em Seattle e região. Devagar o grupo
foi crescendo com pedaladas aos domingos. Mais tarde o clube pleiteou
a transformação de velhos leitos ferroviários
em ciclovias e foram recebendo o respaldo da população
e dos políticos.
A primeira
prova/passeio que o clube organizou foi o Chilly Hilly, um passeio
em uma trilha na região, com muitas subidas e descidas.
Em
1978 foi organizada a primeira STP. Em 1991, a STP já contava
com 10 mil ciclistas inscritos.
OS
PARTICIPANTES
Em
toda edição, cerca da metade dos participantes da
STP são estreantes no evento. Os ciclistas mais jovens têm
entre 10 e 11 anos, e os mais idosos entre 80 e 83. Alguns ciclistas
abaixo de 10 anos já participaram do evento, normalmente
em “tandem” bikes ou em reboques. Participantes em monociclos,
skate e patins também já foram vistos na prova.
Alguns
ciclistas se fantasiam para o passeio. Há participantes de
outros Estados norte-americanos e até de outros países
(olha eu aqui! Brasil!). Alguns formam grupos e treinam em conjunto
para o passeio, outros vão sozinhos.
No
passeio há bicicletas modernas, top de linha, e não
faltam também bicicletas antigas, da época do meu
bisavó. Mountain bikes, bicicletas de ciclismo, tandens...tem
de tudo. O mesmo pode se dizer dos ciclistas, que vão desde
aqueles em ótima forma física, até aqueles
que não estão em tão boa forma assim. Mas todos
tem algo em comum: gostam muito de pedalar.
A inscrição
custa US$ 75 (cerca de R$ 160) e pode ser feita a partir de fevereiro,
na Feira de Bicicletas de Seattle ou no site do Cascade Club também.
O valor inclui uma jaqueta quebra-vento e toda a estrutura do passeio.
A hospedagem e os translados são pagos a parte, de acordo
com o bolso de cada um.
VOLUNTÁRIOS
A STP
conta com a ajuda de muitos voluntários. Ao longo da pedalada,
grupos cívicos e escolas criam pequenos postos de atendimento.
A Patrulha Estadual de Washington, a Policia Estadual de Oregon
e os Departamentos de Policia de cada cidade também estão
envolvidos no evento. Médicos e socorristas ajudam em eventuais
problemas de saúde. O apoio mecânico na estrada é
feito por mecânicos voluntários em carros, e o grupo
da GoldWing Motorcycle Touring Association podem ajudar na troca
de uma câmara de ar, por exemplo.
Durante
o percurso, há paradas oficiais, onde o biker tem acesso
gratuito a comida, água, banheiro, isotônicos e auxílio
mecânico. Entre as paradas, existem também as “não
oficiais”, onde o participante pode comprar o que precise.
MINHA
PREPARAÇÃO
Minha
vontade de fazer a STP começou em 1999, ano em que fui morar
na região de Seattle. Vi um cartaz e fiquei doida para fazer,
mas minha filha tinha menos de um ano de idade. Em 2004, meu marido
fez a STP pela primeira vez e em 2005 fez a rota em um dia apenas.
Em 2006 combinamos então que era a vez dele cuidar da cria
e eu ir pedalar.
Estipulei
pedalar pelo menos três vezes por semana, começando
com 20 milhas ao dia, sempre pela manhã, às cinco
e meia. Comecei mesmo a pegar firme, mas nem tanto, no mês
de maio de 2006.
Para
servir de treino, percorri 100 milhas na prova Flying Wheels. Notei
que meu fraco estava nas subidas longas e inclinadas. Notei também
que eu já estava acostumada com mais de cinco horas de selim.
Após
a Flying Wheels, mudei meu treino para 40 milhas na segunda-feira,
com uma grande subida, 70 milhas na sexta-feira, com uma grande
subida, e na sexta ou sábado, mais 70 milhas com duas grandes
subidas. Não treinei nenhum dia consecutivamente e em nenhum
treino eu fiz as 100 milhas.
CHEGA
O DIA...
Confesso...
nos dias anteriores à prova, eu nem consegui dormir pensando:
“Será que eu ia parar na metade?”. Eu sabia que
conseguiria percorrer 102 milhas até Centralia, mas e o outro
dia? Como seria? O sol da região é escaldante nessa
época do ano, pois é verão no Hemisfério
Norte. Decidi largar em uma das primeiras largadas, às 5
da manhã.
A
LARGADA
As
surpresas começaram na largada. Havia muita, muita gente...milhares
de ciclistas! A organização é impecável
e os ciclistas alinham antes da faixa de largada. Um mini-semáforo
libera um grupo de ciclistas a cada 10 minutos, com uma contagem
regressiva.

As
milhas iniciais são maravilhosas, passam pelo Centro de Seattle
e depois o percurso segue margeando o lago Washington. Não
sei se pela emoção ou se eu estava bem mesmo, mas
minha média estava em torno de 15 a 17 milhas por hora.
Minha
primeira parada foi na da loja REI (www.rei.com), na cidade de Kent,
onde peguei mais água e barrinhas.
KENT
A SPANAWAY
O terreno
começa a ficar mais acidentado, com algumas sublinhas, até
chegar próximo a cidade de Puyallup, onde tem o “The
Hill”, uma subida longa, marcada no mapa e que o ciclista
recebe como “Um ritual de passagem que você tem que
conquistar”. Mantive uma boa velocidade média e fiquei
muito feliz, pois ainda não eram 10 da manhã e eu
já tinha feito boa parte do trajeto.
SPANAWAY
A CENTRALIA
A paisagem
é linda, com passagens por rodovias vicinais cercadas de
pinheiros. Alguns trechos os ciclistas têm que dividir espaço
com o trânsito da rodovia, o que torna o trajeto um pouco
tenso. Noutro trecho, percorremos uma trilha asfaltada, entre as
árvores e totalmente segura.
Cheguei
a Centralia (milha 100.2) às 12h45. Centralia é a
maior parada e considerada “a metade” oficial do trajeto.
A parada é no Colegio de Centralia, onde tem música,
comida, bicicletário e onde muita gente acampa, seja na grama
do colégio, seja em sacos de dormir, ou dentro dos prédios
do campus.
Descansei
um pouco e pedalei mais 5 milhas até Chehalis, onde encontrei
meu marido e minha filha, e acampamos mais tarde.
Eu
estava realizada, pois consegui pedalar com seguranca e chegar inteira
(em vários aspectos) até o meio do caminho. De sobra,
chegar a Centralia em menos tempo do que meu marido e seu grupo
foi muito prazeroso, eh, eh, eh...
SEGUNDO
DIA
Levantei
as cinco da matina e fui tomar o café da manha no centro
comunitário. Estava bem frio, mas já havia muitos
ciclistas pedalando. Esse foi um dos pedaços mais bonitos
do passeio, por entre fazendas, algumas abandonadas, muitos celeiros
antigos e plantações. O sol nascendo formava uma paisagem
maravilhosa com a névoa da manhã.
Logo
depois dessa parte, vem o que os norte-americanos chamam de “rollers”,
pequenas subidas que se alternam com descidas. Nessa parte do passeio
a população é bastante amistosa, e algumas
casas pessoas oferecem água gelada ou chocolates. Em outra
comunidade fizeram bolo para distribuir aos participantes.
Na
Ponte Lewis Clark o percurso atinge o limite de Estados entre Washington
e Oregon. Para a travessia da ponte, a organização
do evento bloqueia, de tempos em tempos, uma das faixas da pista
para os ciclistas cruzarem.
Após
a ponte, vem a parte mais chata e longa de todo o passeio. Seguir
até Portland beirando a rodovia, com muito transito e um
péssimo acostamento, com muitas pedrinhas e cacos de vidro.
Foi onde eu vi o maior numero de bikes com pneus furados.
MISSÃO
CUMPRIDA
Fez
muito calor no segundo dia, ao contrário do dia anterior.
Evitei muitas paradas, pois não via a hora de chegar. Esse
foi o trecho mais longo da prova. O trajeto se revezava em subidas
com pequenas inclinações, mas eram subidas longas,
muito longas.
Cheguei
finalmente a Portland às 14 horas. Já era hora, pois
as últimas milhas se resumiram a uma longa estrada, cercada
de prédios decadentes de um bairro industrial, sob um sol
escaldante e sem uma sombra sequer. Havia tantos ciclistas que em
muitos lugares era impossível pedalar a mais de 10 milhas
por hora (16 km/h), e sempre em fila indiana.
O
final da STP foi no Holladay Park, em Portland. Para minha surpresa,
era grande o numero de torcedores nas ruas, gritando palavras de
estímulo.
Eu,
como chorona que sou, comecei a sentir meus olhos se encherem de
lágrimas. Para aumentar a emoção, ao avistar
a prata, vi um homem que tocava um sino para anunciar mais um grupo
que chegava.
No
meio da multidão vi minha filha Laís e o meu marido
Ladislau com bandeiras, onde pude ler “VALEU MAMÃE!”.
Foi emocionante!
Ao
cruzar a chegada recebi um emblema bordado com a logomarca da prova.
Depois
de comemorar, fui tomar banho em um caminhão/chuveiro/vestiário
e voltamos para casa de carro. Missão cumprida. Cheguei inteira
e realizada e pronta para a 27ª STP no ano que vem.
| ESTATÍSTICAS |
| 46
corredores acima de 70 anos |
| O
mais velho: 86 |
| A
mais velha: 76 |
| O
mais jovem: 1 ano |
| 28
crianças abaixo de 10 |
| 53%
estavam participando pela primeira vez |
| 15%
estavam na sua segunda vez |
| 2
corredores fizeram todas as STP, um fez 25 vezes |
| 21
participaram em pelo menos 20 provas |
Agradecimentos:
para a Lais (que sempre acredita em mim), ao Ladislau ( por todo
seu positivismo), aos meus pais, irmãs e parentes que sempre
acham legal as coisas que eu faço (mesmo sem entender direito
o significado dessas coisas) e meus amigos, que sempre me acham
maluca, mas estao sempre na torcida para minhas maluquices darem
certo.
SAIBA
MAIS SOBRE O EVENTO:
www.cascade.org/EandR/stp/index.cfm
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