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Roteiro

Duas Specialized na Estrada Real

ROTEIRO:
Ouro Preto-MG – Ouro Branco – Conselheiro Lafaiete – Queluzito – Casa Grande
Lagoa Dourada – Prados - Bichinho – Tiradentes – São João Del Rey – São Sebastião
da Vitória - Caquende – Capela do Saco – Carrancas – Traituba (Fazenda Traituba)
Cruzília – Baependi - Caxambú – Pouso Alto – Santana do Capivari – Itanhandu
Passa Quatro – Divisa MG/SP - Cruzeiro – Cachoeira Paulista – Cana
Guaratinguetá – Cunha – Divisa RJ / SP – Parati-RJ.

Participantes:

José Geraldo - Engenheiro - 46 anos - jgeraldomendes@uol.com.br
Flávio Samir - Estudante - 21 anos - fa64@bol.com.br

Novamente estávamos lá, olhando o mapa e planejando todos os detalhes da viagem. Nosso destino já estava definido há meses. O caminho já havia sido definido pelos tropeiros há séculos. Só nos restou marcar a data, revisar as bikes e estar com o preparo físico em dia.

Rodamos com duas bikes da Specialized – uma Stumpjumper Comp e uma Rockhopper. Graças a preparação das bikes e o cuidado no caminho, nosso saldo total de problemas com as bikes foi zero. Não tivemos sequer um pneu furado.

Optamos novamente por uma viagem sem apoio por achar que o apoio limita um pouco o espírito de aventura de uma viagem desta natureza, apesar de ser mais cômodo não ter que carregar bagagem, procurar hotel / pousada, etc.

O roteiro básico foi definido levando-se em consideração:

1) Informações contidas em sites como: Instituto Estrada Real;
2) Relato de viagens de outros ciclistas que fizeram o Caminho Real;
3) O destino final deveria ser uma atração especial.

Terminada a avaliação, optamos por percorrer a Estrada Real – Caminho Velho, partindo de Ouro Preto – MG até Parati - RJ, complementando assim nossa viagem inicial pela “Rota dos Diamantes”, parte da Estrada Real. (Veja Matéria).

MAPA

Primeiro dia

Nossa viagem iniciou a partir de Ouro Preto. Após viagem de carro até lá, montamos as bikes e tomamos a estrada em direção a Ouro Branco. Partimos de Ouro Preto debaixo de uma chuva fina.

Após o primeiro quilômetro a chuva veio forte, nos acompanhando praticamente ate Ouro Branco. Este trecho é caracterizado por subidas longas e fortes, descidas também longas que se tornaram torturantes em função da chuva e do frio.

Uma gripe adquirida dias antes da viagem, que ainda persistia, tornava a viagem um pouco mais difícil em função da dificuldade de respirar e um pouco de febre.

O trecho é todo de asfalto, com visual maravilhoso das montanhas, apesar da chuva e cerração que cobria parte das montanhas. Pontes de pedras construídas no século XVIII podem ser vistas, ainda em bom estado de conservação, ao lado da estrada.

De Ouro Branco, seguimos para Conselheiro Lafaiete, passando por uma estrada secundária, parte da “Estrada Real”.

No caminho, passamos pela “Casa de Tiradentes”, local onde ele se reunia com os Inconfidentes, parando para uma visita rápida a casa e seus objetos históricos.

Chegamos finalmente a Conselheiro Lafaiete, após aproximadamente 60 Km de pedal.

Segundo dia

Depois de um conhaque, um bom jantar e uma cama quente, acordei no dia seguinte sem febre e com melhor disposição para seguir viagem.

Partimos de Conselheiro Lafaiete com o objetivo de chegar em Lagoa Dourada. Não poderíamos puxar muito nos primeiros dias, respeitando os limites do corpo, ainda em recuperação da gripe.

Andamos cerca de 10 Km pela BR-040 e entramos por uma estrada secundária, chegando a Queluzito. Queluzito é uma cidade pequena, bonita e muito bem cuidada.

De lá partimos em direção a Casa Grande, onde paramos para almoçar.

Diferente de outras viagens, onde tomávamos o café da manhã e nos alimentávamos todo o dia com barras de cereais e gel com carboidratos, deixando para fazer a refeição principal somente no final da jornada diária, adotamos a “parada para almoço”, acompanhada de um cochilo no banco da praça. A pedalada após o almoço ficou bem mais consistente, com médias mais altas e disposição para rodar maiores distâncias.

De Casa Grande até Lagoa Dourada, pegamos pela primeira vez um trecho de estrada de terra, cujo visual das montanhas é muito bonito.

Chegamos em Lagoa Dourada (terra do rocambole) no final da tarde e nos hospedamos na Pousada das Vertentes, onde fomos recebidos por três senhoras simpaticíssimas (Aidê/ Áurea/Alba) , que nos deixaram tão a vontade que tínhamos a sensação de estarmos na casa de um parente querido.

A pousada é um casarão construído no século passado e em fase final de restauração, mas mesmo assim muito agradável. Os ciclistas são muito bem recebidos, com local seguro para guardar as bikes. O telefone da pousada é (32) 3363-1343.

Terceiro dia

Saímos de Lagoa Dourada em direção a Prados pela rodovia BR-265, cujo trecho é todo de asfalto. Nossa próxima parada para dormir seria definida em função do caminho a ser percorrido e do tempo gasto na viagem.

Passamos por Prados, Bichinho, chegando finalmente a Tiradentes , em trecho de terra. Nosso objetivo era almoçar o tutu a mineira no bar do Celso e seguir viagem.

Em Tiradentes acontecia a “8a Mostra de Cinema”, que nos convenceu a pousar naquela cidade.

Jantamos o “Tutu a Mineira”, assistimos a um filme da Mostra, visitamos a Estação Central, onde a Maria Fumaça é a atração principal, a fonte e o marco da estrada Real.

Tiradentes, é uma cidade do século XVIII, patrimônio histórico e artístico nacional, onde o turismo é a principal atividade econômica, além da fabricação de produtos minerais não ferrosos.

Quarto dia

Após uma parada para fotos na praça principal de Tiradentes, onde as carrocinhas para passeio são uma atração, passamos pela fonte e seguimos viagem em direção a São João Del Rei. No caminho uma pequena parada no marco da estrada Real.

Em São João Del Rei, visitamos o museu ferroviário, as igrejas principais e passeamos pela cidade, apreciando sua arquitetura.

São João Del Rei, terra do ex-presidente Tancredo Neves, elevada a categoria de cidade no século XVIII, tem como principal atividade econômica o turismo. A cidade possui belos exemplares de arquitetura eclética do século XIX.

Continuamos viagem agora seguindo na direção de São Sebastião da Vitória, seguindo novamente pela BR-265, cujo trecho é de asfalto.

De São Sebastião da Vitória, seguimos, agora em terra, em direção a Caquende e Capela do Saco, pequenos povoados às margens da represa do Camargos.

Este trecho merece uma atenção especial em função do belíssimo visual das montanhas.

A travessia de Caquende para Capela do Saco é feita de balsa e dura cerca de 10 minutos.

Capela do Saco é uma ponta do arraial que sobrou após o alagamento das terras para a represa Camargos, que alimenta a hidroelétrica de Camargos, da Cemig. O local é muito agradável e tranqüilo. Poucas famílias residem no local, que aos poucos se transforma em local de veraneio.

Ao desembarcarmos da balsa fomos recebidos pelo Kleber, proprietário da única pousada no local, que seria inaugurada no carnaval. Além de estrear a pousada do Kleber, tivemos a oportunidade de dar uns mergulhos relaxantes na represa, pescar lambaris, que à noite se transformariam no tira-gosto principal.

Kleber e seu pessoal, nos receberam muitíssimo bem, nos convidando para jantar em sua casa, cuja conversa agradável foi até altas horas.

Capela do Saco é um local estratégico para parada e descanso neste tipo de viagem. O local é tranqüilo, a pousada é novinha e muito bem montada. Ciclistas são bem recebidos com local seguro para guardar as bikes. Para reservas, ligue (32) 9105-3980, falar diretamente com o Kleber.

Quinto dia

Saímos cedo de Capela do Saco em direção a Carrancas. O caminho é de terra, com subidas íngremes e descidas acentuadas. O sol quente nos fez arrepender daquela cervejinha da noite anterior.

Daí para frente é necessário ter muito cuidado com os “mata-burros” invertidos, ou seja, as barras são instaladas na direção longitudinal, tornando-se necessário parar e carregar as bikes para transpor o obstáculo.

Para chegar em Carrancas foi necessário subir a Serra de Carrancas, que com certeza foi a subida mais íngreme da viagem. Uma descida acentuada e estávamos almoçando em Carrancas.

Carrancas é uma cidade que se destaca pela beleza de suas várias cachoeiras. Seu nome é proveniente de escavações feitas pelos garimpeiros em duas montanhas próximas que deram a aparências de duas caras, daí o nome Carrancas. Em 1721 já havia uma capela edificada no local em honra de Nossa Senhora da Conceição, construída na época dos Bandeirantes, toda feita de pedras com imagens banhadas a ouro.

De Carrancas seguimos para Traituba. A estrada (de terra) segue sobre as montanhas. O visual é maravilhoso, podendo se avistar a quilômetros de distância.

Cruzamos e ferrovia e chegamos finalmente a famosa e maravilhosa “Fazenda Traituba” (Pedra Grande).

A sede da fazenda foi construída a partir de 1827 para receber D. Pedro I, ficando pronta em 1831. D.Pedro I, que já conhecia a propriedade, infelizmente em 1830 retornou a Portugal sem conhecer a casa.

A casa da fazenda tem 14 quartos, incluindo o construído para D.Pedro I, e mantém os móveis feitos exclusivamente para recebê-lo. A fazenda conta com várias peças antigas, como uma bengala-cartucheira, quadros do século XVIII com detalhes em ouro e fotografias de todos os proprietários da fazenda a partir da data de sua construção. Uma liteira em processo de tombamento pelo Patrimônio Histórico, que está em ótimo estado de conservação.

A casa antiga e bem conservada tem um pé direito de quase 5 metros, assoalho de madeira e fogão a lenha. Alem de funcionar como hotel, a fazenda é um dos principais criadores de cavalo mangalarga do Estado de Minas Gerais.

Sexto Dia

Acordamos cedo e nos preparamos para seguir viagem. Tomamos café em uma mesa imensa e antiga, e decidimos ficar mais um dia, aproveitando a beleza e o charme que a fazenda oferece. Seria um pecado passar apenas uma noite naquele casarão.

Foi um dia para conhecer a propriedade, passear pelas matas, tomar banho de piscina e comer à vontade uma comida deliciosa, preparada e servida no fogão a lenha.

Sétimo dia

Após mais uma noite de silêncio total e muito bem dormida, com certa tristeza por estar deixando aquele local, e feliz pela perspectiva de novas paisagens, seguimos viagem, agora em direção a Cruzília.

A estrada de terra da fazenda até Cruzília é tranqüila, com as subidas e descidas tradicionais, que já não faziam tanta diferença. Os mata-burros deste trecho também são invertidos.

Em Cruzília lavamos e lubrificamos as bikes e só voltaríamos a pegar estrada de terra na descida da serra do mar. Almoçamos e seguimos viagem. Passamos por Baependi e chegamos em Caxambu, estância hidromineral e turística, onde paramos para “tomar água na bica” no parque da cidade, fazer um reconhecimento do local e seguir em frente.

Quando saímos de Caxambu já eram 17 horas e seguimos em direção a Pouso Alto pela BR-354.

Este trecho da estrada é caracterizado por subidas e descidas longas. A falta de acostamento e de educação de alguns motoristas, tirava um pouco da tranqüilidade da viagem, nos levando a redobrar a atenção. Quando chegamos finalmente a Pouso Alto, já eram 21 horas e um farol fez muita falta nesta hora.

Pouso Alto, cuja atividade econômica principal é a fabricação de produtos alimentícios e bebidas, é o caminho natural para se cruzar a Serra da Mantiqueira. A cidade se desenvolveu a partir do século XVIII, quando os bandeirantes que ali chegaram montaram um acampamento no ponto alto da cidade.

Oitavo dia

Saímos de Pouso Alto por volta das 9 horas da. Nossos horários estavam totalmente desorganizados. Seguimos em direção a divisa entre Minas e São Paulo. Pegamos a MG-158, passando por Itanhandu e Passa Quatro, últimas cidades dentro do Estado de Minas Gerais. Subimos a Serra da Mantiqueira por uma estrada sem acostamento e chegamos finalmente a um marco importante de nossa viagem: a divisa MG/SP, a uma altitude de 1184 m.

Após as tradicionais fotos de um visual maravilhoso, descemos a Serra da Mantiqueira, agora em território paulista. Foram 16 quilômetros de uma única descida pela SP-52 (continuação da MG-158) a uma velocidade que alcançava os 70 km/h. Chegamos em Cruzeiro (SP), primeira cidade no território paulista.

De Cruzeiro, seguimos até Cachoeira Paulista, atravessamos o Rio Paraíba, passamos por Cana, até chegar na Rodovia Presidente Dutra.

Seguimos pela Via Dutra por aproximadamente 20 quilômetros, até a cidade de Guaratinguetá. Chegamos à noite, e sob chuva. Mais uma vez a rotina se repete: procurar hotel que deixe colocar as bikes no quarto, jantar e dormir, pensando no dia seguinte.

Nono dia

No último dia acumula-se o cansaço e aquelas pequenas dores musculares. A vontade de pedalar já esta quase satisfeita, o que nos obrigou a buscar a motivação necessária para seguir viagem com a mesma alegria do dia da partida.

Restavam cerca de 100 quilômetros com muitas subidas; duas serras (Quebra Cangalha e Serra do Mar) estavam bem a nossa frente, nos desafiando. Baseado em relatos de outros ciclistas, estávamos imaginando uma serra quase instransponível.

Com o espírito de vencer as serras, partimos de Guará em direção a Cunha.

A primeira etapa da viagem até Cunha foi de subidas longas e de falsas retas, que na verdade eram subidas longas e leves. Apesar das subidas, vencemos a primeira etapa com certa tranqüilidade. Chegamos a Cunha por volta das 13 horas. Paramos para almoçar e decidir se seguiríamos viagem neste mesmo dia ou pousaria naquela cidade.

Mais uma vez, baseando em relatos, imaginamos que não conseguiríamos alcançar o ponto máximo da subida naquele dia. Motivados pela expectativa de chegar em nosso destino neste mesmo dia, e sem esperar que o organismo fizesse a total digestão, partimos para encarar a última parte da viagem bem lentamente.

Algum tempo depois já estávamos novamente no ritmo normal. Agora as subidas eram para valer; longas e íngremes, mas transponíveis.

A tarde caia e à medida que íamos subindo a Serra do Mar, a temperatura também caia, a cerração tomava conta e a chuva começava a engrossar.

A subida da serra do mar é maravilhosa, o visual, a vegetação, as quedas d’água, as nascentes, as pontes, os hotéis e pousadas dentro da mata, enfim, neste momento só se pode agradecer a Deus por poder estar naquele lugar, em cima de uma bike, com saúde e muita motivação.

Naquela altura, a possibilidade de parar não existia mais. Chegamos finalmente ao ponto mais alto da Serra do Mar (1528 m de altitude). Lá também é a divisa de estados SP/RJ.

Já era quase noite, o frio e a chuva eram intensos. Também a alegria era grande, pois tínhamos praticamente chegado ao nosso destino final. Faltavam apenas 20 quilômetros, só de descidas.

Neste momento aparecia uma pontinha de tristeza. A viagem estava chegando ao seu final. É como comer aquele finalzinho da sobremesa, tinha que ser bem devagar para demorar a acabar.

Dali em diante foram 16 quilômetros de descidas, estrada de terra, muita curva, abismos, que somados à chuva intensa, frio e o início da noite, tornaram o trecho um dos mais pesados da viagem. As mãos doíam de tanto frio e de frear, a lama e a chuva davam o toque final. Saímos de uma altitude de 1528m para o nível do mar em apenas 16 Km.

De tanto frear, as borrachas de freio da bike do Flávio acabaram, tornando a descida perigosa. Por volta das 20 horas, chegamos finalmente ao marco da Estrada Real, na entrada de Parati, e logo depois avistamos a periferia da cidade, agora seguindo por um terreno plano que nos levou até o centro da cidade.

Fim de mais uma viagem, outro objetivo alcançado. Agora é só comemorar.

Bikes

Specialized - Stumpjumper Comp
Specialized - Rockhopper

Alimentação, hidratação e preparação

Nossa alimentação e hidratação durante a viagem foi a base de muita água, utilizando-se uma mochila do tipo Camel Back, de 2,5 litros.

Nesta viagem mudamos nossa maneira de alimentar. Ao invés de utilizar os sachês com gel e barras de cereais, optamos por almoçar todos os dias na estrada. Depois de um descanso para fazer o “quilo” em algum banco de praça, nosso rendimento era bem melhor.

Comentários e dicas

Quando fizemos nosso roteiro pela Estrada Real, tivemos dificuldades em identificar o caminho correto a seguir. Se passarmos por todas as cidades que são apresentadas no mapa, provavelmente seguiríamos em Zig Zag pelo caminho.

Quando se esta na estrada em busca de informações, existem várias versões para o caminho real. “A estrada passa na porta da fazenda de todo mundo”.

Viajar sem carro de apoio pela Estrada Real é perfeitamente seguro e tranqüilo. Alem da liberdade, amplia-se o espírito de aventura.

Normalmente os hotéis/pousadas/pensões em cidades pequenas são mais baratos, alem da boa conversa com os moradores. Evitamos sempre parar em cidades de maior porte.

Se quiserem evitar lesões que podem interromper sua viagem, pedale no seu ritmo. E se o preparo físico não tiver 100% na data da saída, vá devagar nos primeiros dias, assim você vai readquirindo o preparo necessário durante a viagem.

A Estrada Real tem uma história muito rica. Recomendamos aos viajantes se informarem de sua história e características das cidades antes de pegar estrada. A parte cultural é tão importante quanto a esportiva.

Texto: José Geraldo Mendes
E-mail: jgeraldomendes@uol.com.br

Leia também:
ROTA DOS DIAMANTES - Estrada Real em Minas Gerais


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