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Uma pedalada de 256 quilômetros
pelas mais belas praias de SP

Foram quatro dias pedalando pelo litoral norte do Estado de São Paulo.

Não gosto muito de trilhar asfalto, mas decidi fazer uma cicloviagem para poder ter o prazer de conduzir uma bike sozinho por caminho traçados e escolhidos somente por mim.

Viagens solitárias são comuns hoje em dia e são uma excelente forma de colocar a prova toda forma de pensar e agir. Tomar decisões, arcar com as conseqüências e literalmente "se virar" são palavras que perseguem aventureiros mundo afora.

Primeiro Dia - Ubatuba/Ilha Bela

Saí na manhã do dia 26/01 de Ubatuba com destino a Ilha Bela às 5 horas com chuva no capacete. Ainda escuro e com o farol da bike aceso, sentia s sensação de liberdade. Pedalar nos acostamentos da SP-055 (BR-101) não é uma tarefa fácil, principalmente em locais onde há muita areia, pedras, e barro.

Foi logo no começo que entendi porque cicloturistas preferem as mountain bikes para suas viagens. Essas bikes suportam os piores terrenos. Tive uma bela visão do nascer do sol já em Caraguatatuba na praia de Massagaçu. Apesar do templo nublado, consegui tirar umas fotos do horizonte avermelhado nos primeiros minutos do nascente.

Chegando em Caraguatatuba consegui desfrutar de alguns quilômetros de ciclovia a beira mar. No entanto, a tranqüilidade terminou quando retornei para a SP-055 para chegar a São Sebastião. Fiz a primeira travessia de balsa sem pagar da minha vida, e nem me preocupei em saber quanto economizei. A chuva ainda caía fraca, mas persistente.

Já em Ilha Bela, comecei a busca informações sobre o destino do dia seguinte, Praia de Castelhanos lado leste da Ilha. Segundo as informações obtidas era impossível atingir Castelhanos naqueles dias. Devido às chuvas intensas, apenas veículos 4 X 4 estavam trafegando pela estrada.

Como estava cansado, resolvi deixar esse assunto para outro dia e buscar minhas acomodações no lado norte da Ilha.

Segundo Dia - Castelhanos

Acordei, tomei café e saí em direção ao meu destino. Como era de se esperar a chuva que caiu durante a noite toda ainda era incessante.

Entrei na trilha junto com um Jeep que levava turistas para a praia. Sem se preocupar se realmente iria conseguir atingir meus objetivos, entrei na estrada pedalando forte. Foram 14 quilômetros de subida até o topo da Ilha. Nesse trajeto encontrei trechos de barro suportável, terra firme e uma estrada aceitável. Comecei a me perguntar onde estava o impossível.

Do topo pude ver a minha tão sonhada praia de Castelhanos! Se cheguei até aqui então porque não descer? Verifiquei os freios, tirei o excesso de barro e morro abaixo!

Conforme ia descendo a coisa foi ficando pior. Uma leve sensação de arrependimento começou a me atormentar quando dei de cara com o "impossível". Um longo trecho de barro como nunca vi na vida. De início rasguei pedalando, mas logo depois ficou impossível. O barro era tanto que travou o V-Brake dianteiro, traseiro, relação etc.

Quando fui tirar uma foto tive a visão do que mais temia. Um pneu traseiro furado. Nessa situação tinha duas opções, voltar, reparar o pneu fora da lama e retornar para o centro, ou seguir com o pneu furado e tentar uma carona com o único Jeep que desceu. Optei pela segunda.

Consegui pedalar a bike depois de encontrar uma cachoeira e lavar tudo. Foram mais alguns quilômetros com o pneu furado e muitos tombos. Usava a bomba para encher um pouco o pneu e sustentar o peso.

Faltando alguns metros para atingir a praia surge mais uma. Uma temida bifurcação sem placas. Isso é tudo que não se deseja encontrar quando se está sozinho e não se sabe o caminho. De bike mesmo um erro pequeno sempre é em dobro, pois se errar 10 km, você terá que pedalar 20 km; 10 km de ida e mais 10 km de volta. Por sorte ou não, segui o certo.

Na praia localizei o Jeep de turismo, mas esse "grande amigo" off-road me deixou na mão. Se negou a me ajudar e nem se importou com o meu problema.

Plano de emergência: pedi um pastel, uma lata de Coca e um balde d'água com as meninas de um barzinho. De pneu reparado, barriga cheia, e banho tomado tomei o caminho de volta. Antes matei mais meia-dúzia de borrachudo no tapa! que desgraça esses bichos.

Devido ao desgaste, pedalei onde dava e empurrei onde achava que iria me matar.

Depois de algum tempo me deparei com o "impossível" novamente. Subir foi mais difícil que imaginei! não conseguia sair do barro!! andar a pé já estava difícil, e carregar a bike impossível. Tentei carregar, não deu; empurrar, sem chances; puxar menos ainda. Com barro até quase os joelhos comecei a pensar na hipótese de ejetar. Isso mesmo, abandonar a bike e voltar a pé. Isso me dava a vantagem de não ter a bike para carregar, mas a desvantagem de me locomover lentamente. Decidi tentar mais, e depois de muito esforço consegui extrair a bike do barro!

Já estava começando a escurecer quando atingi o topo na volta. Comecei então a corrida contra o tempo para aproveitar a luz do dia.

Quando sai da trilha eram mais de 20h30. Estava exausto, mas feliz por conseguir atingir mais um objetivo.

Comi uma marmitex no tablado a beira mar, pois não dava mais pra segurar a fome. Depois voltei ao camping pedalando mais 10 km ao norte. Lavei a bike e fui dormir às 00h30. Missão cumprida!

Terceiro Dia - Ilha Bela - Maresias

Ainda sentia as dores no corpo do dia anterior, mas era necessário seguir. Destino Maresias.

Tudo arrumado, pedal na estrada! Fiz a travessia sem preocupação e cheguei ao centro de São Sebastião. Estava sem pressa, afinal teria o dia inteiro para pedalar. Encontrei um maluco que estava fazendo uma volta pelo Brasil de bike. Digo maluco não pela loucura, mas sim pela coragem do cidadão. Destino dele: Amazônia. Conversamos por duas horas e depois prossegui.

Passei por praias maravilhosas e cheguei a Maresias às 17 horas. Já estava começando a sentir o desgaste. Tornozelo direito inchado e joelhos doendo.
Estava decidido para por aqui, mas como só poderia dormir uma noite no albergue e teria de voltar no dia seguinte sem aproveitar mais nada decidi prosseguir até o albergue mais próximo em Camburi.

Quarto Dia - Maresias - Camburi.

Tudo que eu menos queria era pedalar na minha real situação. Sabia que percorrer os 12Km não seria uma tarefa fácil, mesmo sabendo que a distância não era tão grande.

Havia lido outros relatos sobre a famosa serra da Boiçucanga, mas mesmo assim ela me surpreendeu pelas subidas inclinadas. No topo depois de 4.5Km percorridos a tão esperada placa Verifique os Freios. V-Brakes ok, morro abaixo. Atingi o meu destino depois de 2h20 de pedal. Um bom relax no albergue foi essencial para repor a energias gastas nos últimos dias.

Fiquei em Camburi por duas noites, e no quinto dia até sai para um pedal a beira mar.

Retornei no sexto dia de ônibus sem a bike, e voltei no oitavo de carro para buscá-la.

Não acreditei que havia percorrido toda aquela distância quando passei de carro pelo mesmo trajeto.

"Foram quatro dias pedalando, 210 km percorridos e 56 praias visitadas. Levo em minha mochila muitas histórias pra contar, na minha memória muitas belas paisagens e no meu coração os amigos que fiz".

Rodrigo Pioto, Campinas-SP. E-mail: rpioto@ig.com.br


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